Por que os Símbolos Cristãos Importam?


Texto por: Jorge Anderson Missional | Fotografia: Joy Tyson




Em virtude do divórcio da teologia e da ciência, como disciplinas que conjuntamente poderiam construir conhecimento, ou olhando para a nova concepção kantiana de ideia, independente da revelação divina, podemos definir o mundo atual mais como o resultado dos últimos três séculos do que toda a história cristã anterior.


Nesse mundo novo, o mundo moderno, em que há uma clara intenção de se colocar o cristianismo nas gavetas esquecidas da história. A imagem cristã, fundamental para a construção do imaginário religioso e moral da sociedade até então, parece dissolver-se numa secularização sem precedentes.


Somos uma geração sem símbolos cristãos, e, consequentemente, sem identidade.

E o desfazimento da imagem cristã no mundo não se faz somente pelo abandono dos símbolos cristãos, mas principalmente pela ressignificação desses, de maneira que eles percam seu sentido dentro da história bíblica de Deus com o homem; sua ortodoxia. Assim, usa-se os valores dominantes de uma época, muitos deles anti-cristãos, para dar novo sentido a um símbolo evangélico que já está posto no mundo.


A Páscoa, antes a lembrança viva da morte e ressurreição do Cristo, agora é uma data comercial, desprovida de valor e reflexão mais profundos, sujeitos ao espírito de nosso tempo, nesse caso a sociedade capitalista, que precisa criar uma agenda para fomentar o consumo e o comércio. E o que nós cristãos fazemos com isso? Nos mantemos indiferentes, néscios muita das vezes, nos deixamos a nós e aos nossos serem envoltos nesse universo consumista e materialista; perdemos o fio da história. Um símbolo agora é abandonado não no abandono, mas na sua ressignificação.


Assim acontece com o Natal, acontece com a quaresma e tantos outros símbolos. A política usa o messianismo político para se apropriar do conceito bíblico de messias; o estado moderno se apropria da ideia de céu para prometer um mundo perfeito e assim vai ressignificando o mundo, secularizando a sociedade e acabando com os símbolos cristãos. Assim profetizou o filósofo: matamos Deus!


Seguindo esta mesma lógica, olhando para a nossa prática eclesiástica, aprofundou-se, nas últimas décadas, o abandono das imagens cristãs de outrora, como resultado do baixo compromisso com a liturgia; no esquecimento de práticas históricas, como o é o calendário litúrgico; e na depreciação do valor da tradição milenar cristã.


O evangelicalismo recente, com o desejo exacerbado de ser “relevante”, aderiu a ideia de secularização, criando métodos e estratégias em busca de resultados imediatos e começou a construir nossas comunidades com a boa intenção de termos um bom diálogo com o mundo que nos cerca.


Dessa maneira, mudamos a nossa “configuração” de igreja, a fim de adaptar-nos ao mundo. Aumentamos substancialmente o número de cristãos evangélicos e católicos praticantes na sociedade, porém, parece que criamos um tipo mais atual de cristão hoje: o cristão secularizado. Gente que se caracteriza por se identificar muito mais com aquilo que os une em nossos dias: o fato de serem adeptos de redes sociais, urbanos e consumistas. O que fica nítido é que aquilo que define as nossas comunidades são muito mais os ideais seculares de nosso tempo do que o mútuo conhecimento e apropriação dos valores cristãos de todos os tempos. Há, definitivamente, uma crise de identidade cristã!


Ao observar isso, há um movimento cada vez mais crescente em busca desses valores que pareciam perdidos. Alguns pensadores cristãos tem escrito, pregado e conclamado a igreja para um reencontro aos seus valores essenciais. Os atuais estudos teólogo-sociológicos apontam para a necessidade de um reencontro da igreja com sua tradição e teologia, como forma de garantir, num mundo de guerra identitária, seu futuro.


Nesse sentido, olhar para a lição histórica da nação de Israel é fundamental. Israel desenvolveu-se como nação cercado pelo desafio cultural. Um dos princípios mais fundamentais da nação escolhida era saber revisitar a sua história, refletir sobre ela e guardar nos símbolos (festas, liturgia e costumes) o caminho para se reencontrar com Deus e sua fé. É por isso que, nos momentos mais decisivos da história daquela nação, era comum seus líderes recontarem ao povo sua história, reavivando sua identidade, como forma de tornar claro por onde eles deveriam seguir indo - seu passado apontava para seu futuro. Isso ocorre em momentos fundamentais como na libertação do Egito (Ex 13.3), no discurso de Josué (Js 24), no retorno do cativeiro babilônico (Ne 9.3), na consagração do templo por Salomão (2Cr 6.5), e, posteriormente, retomado no discurso de Estêvão (At 7). Esses momentos históricos, muita das vezes lembrados através de festas e celebrações litúrgicas (os símbolos), são parte fundamental da formação da identidade judaica e são importantes para darem sentido a história e trazerem uma consciência futura.


Os símbolos cristãos são fundamentais em todos os tempos, e muitos mais nos dias atuais, onde a secularização tenta anular a influência cristã no mundo, através da sorrateira ideia de um cristianismo secularizado.

Entendemos a importância de uma igreja antenada e atual, que não abre mão das ferramentas para potencialização de seu trabalho de evangelização. Contudo, defendemos uma espiritualidade que não abra mão da sua identidade. Sabemos que os símbolos são formadores identitários, possuindo um caráter pedagógico na construção do imaginário cristão tão fundamental para o fortalecimento de uma espiritualidade vibrante e verdadeiramente relevante. Eles fortalecem nossa identidade de grupo e ajudam a transmitir os valores cristãos para as gerações subsequentes.


O mundo carece de imagens e nós temos a imagem de Deus em nós (imago Dei). Em meio à guerra cultural, identitária e narrativa, é necessário reavivar os símbolos cristãos em nossas comunidades de fé, a fim de, conscientes de quem somos e para onde vamos, possamos ser sal conservando as boas dádivas de Deus no mundo; bem como, através da pregação do evangelho, declararmos ao mundo que só há uma narrativa verdadeira: Cristo Jesus, morto para nos salvar!



Anderson Missional é militar e estudante de Filosofia. Casado com Monique, pai da Laura e do João Eduardo. Serve na Rez Church Rio e mora em Niterói, RJ.