Um Convite às Mulheres Cristãs

Texto por: Darli Lopes | Fotografia: Daniela Constantini




Muitas mulheres, por vezes, têm dúvidas sobre qual o seu trabalho e serviço no meio da igreja de Cristo e o que podem fazer para contribuir para a formação e até mesmo o fortalecimento espiritual de seus irmãos na fé. Sentem-se limitadas, entendendo que seus chamados, como mãe, esposa, estudante ou profissional, não permitem ou não dão sentido ao estudo teológico aprofundado; e é sobre isso que gostaria de falar neste texto.


Durante toda a história da igreja foram-nos apresentados homens piedosos, tementes ao Senhor e que muito contribuíram para a propagação do evangelho em suas respectivas épocas. Este fato não deveria intimidar mulheres a não desenvolverem o estudo ou trabalho teológico dentro de suas igrejas, fazendo com que acreditem que esta benção é apenas para os homens. Muito pelo contrário, deveríamos ser gratas a Deus pelo trabalho destes homens que em seus contextos lutaram pela liberdade e justiça cristã em sociedade machistas, e, pior, sociedades apóstatas, e usufruirmos desta benção.


Além dos exemplos de tantos homens de Deus, temos uma fonte ainda mais confiável que nos motiva ao estudo.


Esta fonte é a Palavra de Deus, que não só tem orientações e encorajamento, como ordenanças a todos os filhos de Deus, sem exceção, para que todos possam aprender, viver e ensinar corretamente a verdade do evangelho.

Escolhi abordar alguns tópicos que, creio, podem auxiliar no entendimento da necessidade deste convite.


O que é teologia?


De forma sucinta, é o estudo da auto revelação de Deus. Todos os homens produzem teologia. O que diferencia uma teologia da outra é quando uma é baseada nos ensinos bíblicos e a outra não. Esta última, quando identificada, deve ser descartada, visto que tudo aquilo que foge do que está registrado na Palavra deve ser considerado anátema (Gálatas 1:8).


A teologia refere-se àquilo que sabemos, acreditamos e pregamos a respeito e a partir do conhecimento de Deus e sua criação. Inclusive, tudo aquilo que pensamos a respeito do homem de forma integral é baseado em nossas crenças teológicas, já que o homem é um ser religioso em sua essência.


Chamado a uma fé intelectual


Sabido que todos produzimos algum tipo de teologia, devemos pensar no que nos motiva a nos dedicarmos a ela. A resposta a esta indagação está na ordem do próprio Jesus. Veja o que ele diz em Lucas 10:27: “Ame o Senhor, teu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças e todo o seu entendimento.” A Bíblia King James é ainda mais enfática, pois ela diz para amarmos a Deus com “toda a nossa capacidade intelectual”.


A pergunta que fica é: temos usado toda a nossa capacidade intelectual para amar a Deus?

Quando falamos sobre amar a Deus, como cristãos, isto nos remete de imediato ao amor ao nosso próximo, e o amor cristão é prático, é serviço. Amar ao nosso Deus é também buscar conhecê-lo, conhecer seus preceitos, no sentido mais profundo da palavra. O conhecimento verdadeiro e profundo do nosso Deus tem influência definitiva em nossa teologia, em nossa definição de quem somos e quem Deus é, e com isso toda a nossa forma de enxergar o mundo e de viver nele muda.


Pregação do evangelho


Como vimos, a nossa fé não deve ser baseada em sentimentos ou sensações, mas num entendimento profundo de quem Deus é. A importância desse tópico é devida a um outro mandamento que nosso Senhor Jesus nos deixou: “Então, Jesus aproximou-se deles e disse: 'Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos'”. (Mateus 28:18-20).


O IDE, a grande comissão, não foi destinado apenas aos homens, apesar de os receptores iniciais terem sido os onze . Nosso Jesus deixou claro a eles a ordem de fazer discípulos em todas as nações. Não há exceções no ide, e ele nos segue. A partir do momento em que cremos que Jesus foi enviado para salvar aqueles que o Pai lhe confiou (João 6:39), esta certeza deve nos motivar a pregar este mesmo evangelho.


Não importa em qual meio você esteja inserida, seja ele corporativo, hospitalar, acadêmico ou familiar, a pregação do evangelho não é uma opção, é uma ordem.

Devemos estar equipadas para ensinar as ordenanças da palavra de Deus, e a única forma disso acontecer é nos dedicando a ela.


Mulheres, teologia e o serviço


Antes de seguirmos para o próximo e último ponto deste artigo, gostaria de abordar um tema que por vezes é delicado, mas creio que seja necessário.


A condução da igreja e o ensino em culto público a toda a congregação faz parte do serviço a Deus e à igreja prestado pelos homens da comunidade. Mas não qualquer homem: estes devem ser piedosos, tementes ao Senhor e dados ao estudo da palavra. Porém, também não creio que as mulheres devem ter uma participação unicamente passiva.


Mulheres foram chamadas pelo mesmo Deus através do mesmo evangelho para realizar serviços específicos a elas. Como dentro de um casamento, homem e mulher são complementares, nenhum se sobrepõe ao outro, eles servem um ao outro de acordo com as ordens deixadas a cada um. Na igreja, creio que seja da mesma forma.


O fato de nós mulheres estudarmos e nos dedicarmos ao estudo da Palavra do nosso Deus nos possibilita servir à igreja de inúmeras formas, dentre as quais citarei algumas: dar aulas em escolas dominicais para diversos públicos, não só para as crianças; conduzir estudos em pequenos grupos; discipular novas convertidas; acompanhar irmãs que estejam passando por qualquer que seja a dificuldade, desde que amparadas na Palavra do Senhor. E estes são exemplos dentro do contexto eclesiástico, mas já parou para pensar no mar de oportunidades que também temos fora dele?


O conhecimento e o viver dos mandamentos deixados nas Escrituras a nós nos tornam aptas a discipular nossos filhos e familiares, nos capacitam a sermos melhores auxiliadoras aos nossos maridos e a sermos lugar de conforto para nossos amigos, nos tornam extremamente úteis em nossos trabalhos, pois além dos conhecimentos técnicos, temos a sabedoria que vem do alto, e que diferença isso faz!


A Palavra de Deus nos capacita a sermos, em Jesus, sal e luz no meio, no contexto, no mundo!

Louve a Deus, minha irmã, por tantas oportunidades que Ele nos dá de servi-lo com e através da pregação e ensino das boas novas nas suas variadas formas.


Teologia para a glória de Deus


Creio que chegando aqui você já esteja, de certa forma, convencida do chamado e da seriedade que devemos ter em relação ao estudo e propagação da palavra de Deus, e que isso deve ser feito através de uma boa teologia. É importante também falarmos sobre um cuidado que todo teólogo deve ter ao se dedicar aos estudos.


Quando nos dedicamos de forma intencional ao aprendizado, é orgânico que passemos a ter conhecimentos a mais ou diferentes de nossos irmãos. Aprendemos termos técnicos, histórias de conceitos, e a filosofia, mesmo sem o nosso querer (risos), passa a fazer parte também dos nossos estudos. E tudo isso é bom; devemos louvar a Deus por nos possibilitar receber estes novos conhecimentos e informações, lembrando sempre que o fim de tudo isso deve ser a glória de Deus e o serviço à igreja de Cristo.


O que gostaria de deixar como ponto de atenção a todos que se dedicam ao estudo e ensino da Palavra, os ditos teólogos, é que nunca nos esqueçamos de qual deve ser a motivação do nosso coração. Paulo nos alerta em sua primeira carta aos coríntios que tudo o que nos dispusermos a fazer, façamos para a glória de Deus (1ª Coríntios 10:31).


Devemos, irmãs, e irmãos que também estiverem lendo, nos diminuir a cada “descoberta” do ser Deus, reconhecer nossa pequenez em contraste com o tamanho da sabedoria e poder do nosso Deus, humildemente o louvarmos por todos seus atributos e fazê-los conhecidos a todos através da mesma humildade.

Se por acaso, o estudo da Palavra de Deus o tem tornado soberbo e/ou arrogante, ore a Deus para que Ele possa redirecionar o seu coração, pois o fim não é a nossa glória por sermos “grandes” teólogos ou conhecedores, mas sim a glória do Deus que nos escolheu, apesar de nós, para se manifestar e se fazer conhecido através de seu Filho Jesus. Ele, Jesus, é toda a sabedoria, e nós, seus servos. Glórias somente a Ele por isso.


Conclusão


Irmãs, o intuito de toda essa escrita é encorajá-la a estudar a Palavra de Deus de forma intencional. Não importa qual o seu contexto, a Palavra de Deus é lâmpada para os nossos pés e não permitirá que nos desviemos do caminho. Ela também traz conforto e alegria aos nossos corações. Nos torna servas obedientes ao nosso Senhor, e, se a guardarmos, não pecaremos contra Ele. (se precisar de mais motivos, leia todo o Salmo 119.)


Aprender da palavra de Deus não nos torna aptas apenas a discipular nossas irmãs e irmãos, mas também a discipular a nós mesmos, discipular nosso próprio coração pecador.


Que o Senhor e seu Espírito Santo possam ajudá-la a compreender seu chamado como discípula de Cristo e propagadora do evangelho, e que você encontre graça no fato de você ser uma mulher, uma filha amada que também recebeu lugar na mesa do Rei!


Por fim, lembremo-nos da palavra do apóstolo: “Não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28).



 

Darli Lopes é consultora em Gestão de Pessoas. Estuda de teologia no Invisible College. Serve na 1ª Igreja Presbiteriana de Jundiaí, SP.