O Pão é Nosso e a Literatura Também

Texto por: Everton Gonçalves | Fotografia: Yaroslav Shuraev / Rey Seven




As três grandes religiões monoteístas, cristianismo, judaísmo e islamismo são consideradas “Religiões do livro”, já que sua fé tem relação íntima com textos considerados sagrados e de cunho espiritual e teológico.


Historicamente, os cristãos são pessoas com respeitável apreço pela leitura. É claro que isso pode variar dependendo do grau da comunidade e da maturidade espiritual e intelectual de cada pessoa. Atualmente, há uma grande variedade de conteúdo cristão e livros teológicos à disposição do “povo do livro”.


Muitos pastores, líderes e cristãos em geral têm mergulhado em águas doces de bons livros cristãos, se envolvendo com páginas de teologia sistemática, livros devocionais, conteúdo relevante de apologética, livros incríveis de história da igreja cristã, bíblias de estudo e comentários bíblicos e teológicos.


Apesar desse cenário ser incrivelmente favorável para o crescimento espiritual e edificação da igreja, muitas pessoas deixam de lado livros de ficção, mais conhecidos como Literatura – aqui é importante diferenciar literatura de Literatura.


Quando falamos de Literatura de ficção estamos saindo do campo pragmático e didático e indo para o campo da criação literária. O crítico literário James Wood disse certa vez: “A literatura nos ensina a notar melhor a vida; praticamos isso na vida, o que nos faz, por sua vez, ler melhor o detalhe na literatura, o que, por sua vez, nos faz ler melhor a vida”.


Sabemos a importância de bons livros teológicos para a edificação individual, mas quero falar da importância da leitura de livros de ficção.


Ler ficção é imprescindível para todas as pessoas, inclusive para os cristãos.

No Brasil, ler ficção ficou muito atrelado com os “livros clássicos” – Machado de Assis, Graciliano Ramos, Lima Barreto, entre tanto outros. E muitas pessoas tiveram uma péssima experiência na adolescência quando foram “forçadas” a ler alguns romances no ensino médio. E talvez essa experiência foi algo tão ruim que os afastou da literatura.



Quando você lê um livro como Dom Casmurro ou O Cortiço com 15 anos, talvez o que vai produzir não é calor no coração, mas frieza nos ossos, pois talvez não seja o momento adequado para ler este tipo de livro. Mas isso não significa que a literatura não possa ter outras vias cheias de belas histórias e autores um pouco mais acessíveis.


A literatura não é um amontoado de histórias que vão encher sua cabeça com o intuito de te distrair, mas a boa literatura é um soco na boca do estômago em um dia bem gelado.


A ficção tem o poder de expandir nossos horizontes para muito além de nós mesmos.

Poderia citar muitas características que a literatura de ficção produz, mas quis separar apenas três.


1. A boa literatura nos tira de nosso conforto

Literatura ficcional expande a amplitude de nossas experiências e nos faz crescer em simpatia para com os outros”.

Tony Reinke


Uma das características mais potentes da ficção é transportar o nosso imaginário para um lugar além da terra seca da realidade. É impossível você ler “Crônicas de Nárnia” e não se imaginar na frente de Aslam. Ou quando você lê “A Estrada” de Cormac McCarthy e não sentir o gosto amargo de uma terra árida e pós-apocalíptica.


É com a literatura que os olhos conseguem enxergar um mundo mais nítido. Às vezes estamos tão presos em nossos pequenos guetos que esquecemos que há uma infinidade de possibilidades e pessoas lá fora.

Quando o escritor Jorge Amado escreveu “Capitães de Areia”, ele precisou passar alguns dias investigando o trapiche que as crianças e adolescentes moravam. Nesse romance o autor nos conduz pela jornada dos meninos “sem pai, sem mãe, sem mestre”. Dificilmente você vai ler a história e não se emocionar com a realidade dura das ruas.


2. A literatura de ficção proporciona o ócio poético e criativo


Ler ficção é um sinal de intervalo na sala de aula da vida. Estamos tão acostumados com uma vida agitada que nem percebemos que horas são. Precisamos aprender a relaxar, desligar o wi-fi, pegar um bom café ou chá, sentar no sofá e ler um bom livro. Muitas vezes queremos apenas aprender, trabalhar e produzir, isso são coisas boas, mas não precisamos “produzir” o tempo inteiro. Também precisamos desacelerar e contemplar as coisas boas da vida.

Como disse Felipe Zamana, especialista em criatividade: “Não imagine que tudo o que você aprende deva ser aplicável na prática. Encarar o mundo apenas de forma prática é um comportamento de um nível muito baixo porque remete a uma atividade muito mais repetitiva do que criativa.”


A sociedade pós-moderna aprendeu a acelerar e viver um ritmo frenético, muitas pessoas são conhecidas pelo desempenho e pela produtividade, mas diante de Deus não seremos vistos pelo que fazemos, mas sim por quem somos. Muito pragmatismo pode deixar nossa visão turva e nos levar a pensar que se não estamos produzindo ou aprendendo tem alguma coisa errada.


O filósofo coreano Byung-Chung Han escreveu: “A sociedade laboral indidualizou-se numa sociedade de desempenho e numa sociedade ativa. O animal laborans pós-moderno é provido do ego ao ponto de quase dilacerar-se.”


A literatura ficcional é uma porta para a contemplação e desaceleração, pois é ali que nós desligamos a chave da produtividade e apenas lemos por puro prazer e contemplação.

A atitude da contemplação revela a serenidade da graça de Deus e ao mesmo tempo um estado de alegria e plenitude em Jesus. O Cristo revelou um olhar contemplador em muitas etapas de sua vida. “Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam” (Mt 6:28)

Precisamos urgentemente “olhar os lírios do campo”.


E nessa dinâmica de ler por prazer e contemplação nós também somos afetados por doses cavalares de sabedoria através da literatura. Se um texto teológico, filosófico ou didático tem a função de ensinar algo através de estudos aprofundados, a literatura consegue revelar sabedoria através da vida dos personagens.


O romance extraordinário “Crime e Castigo”, do autor russo Fiódor Dostoiévski, não tem uma linha dizendo o que você deve fazer, mas tem mais de 450 páginas narrando “o que não se deve fazer”, e isso através da vida do personagem principal, Raskólnikov. Esse texto esplêndido fala sobre pecados ocultos, dilemas morais e indagações que muitas pessoas carregam dentro de si.


3. A literatura ficcional transborda graça comum


O teólogo e professor Wayne Grudem afirma: “Deus tem permitido medidas significativas de talento nas áreas artísticas e musicais, bem como em outras esferas na quais a criatividade e o talento podem ser expressos, tais como atividades atléticas, arte culinária, literatura e assim por diante.”


Graça comum é uma esfera da graça de Deus que é derramada sobre várias pessoas, e através dessa medida de graça o mundo consegue se tornar um lugar belo e convidativo. A graça comum é uma forma de Deus manifestar sua misericórdia e ampla criatividade, e isso nos leva ao deslumbramento e quebrantamento diante de tamanha compaixão com a humanidade.

Por muitos séculos escritores tem sido alvos da graça comum. Shakespeare, Dostoiévski, Cormac Mcarthy, Dino Buzzati, Kafka são alguns belos exemplos de como a literatura ficcional pode revelar beleza e graça. Leia o seguinte trecho do livro “O deserto dos Tártaros”, um pequeno romance escrito em 1940 pelo autor italiano Dino Buzzati: “No fim, sua consciência não está demasiado pesada, e Deus saberá perdoar (...) com inexprimível alegria Giovani Drogo percebeu, de repente, estar absolutamente tranquilo, ansioso quase por recomeçar a provação.”

São textos assim que revelam a magnitude da graça comum agindo sobre os homens. Lembro-me das palavras do Pastor e escritor Leandro Vieira: “É possível que haja beleza na criação, bem como na obra das mãos dos homens, quer salvos ou não (...)”

É importante entendermos que literatura ficcional não é perda de tempo, pois diante da vida, tudo deve ser feito para a glória de Deus, até mesmo nossas leituras.

Ler um bom livro de literatura é conhecer mais da graça comum na prática. Além disso, a boa literatura nos afasta das nuvens de clichês e respostas rasas. Romances, poemas e contos são fábricas de novos olhares.

Assim como a história da humanidade revela a evolução da linguagem, a história da literatura revela a beleza por trás das histórias – e que nem sempre são apenas ficcionais, mas muitas vezes um recorte da vida comum -, e histórias formam a humanidade, unem os homens, glorificam a Deus, e deixam nossa mente em um estado de contemplação.

Que sejamos o povo do Livro e o povo de bons livros.



 

Everton Gonçalves é editor de livros e revisor de textos. Casado com Helirin Beatriz e pai da Alice. Serve na Família dos que Creem, em Curitiba, PR.