O Abraço de Deus que Acolhe a Humanidade Hostil


Texto por: Vanessa Belmonte | Fotografia: Chris Ainsworth



Exclusão e Abraço* é uma reflexão teológica sobre identidade, alteridade e reconciliação, como o próprio subtítulo do livro sinaliza. Publicado em 1996, sua análise cuidadosa do surgimento de grupos identitários na década de 1990, é ainda muito relevante para o contexto que estamos vivendo, de polarizações e conflitos de opiniões.


Como podemos compreender a natureza de nossa identidade, considerando as diferenças de tempo, lugar, cultura e religião, e, ainda assim, considerarmos uma derivação de uma humanidade comum, moldada a partir da imagem do Deus que nos criou?


Miroslav Volf esclarece, logo na introdução, que escreveu este livro no ambiente dos conflitos concentrados na identidade num mundo que rapidamente se globalizava. Nesta época, os conflitos entre croatas, católicos, bósnios, muçulmanos e sérvios ortodoxos cresciam em nome de suas identidades étnicas e religiosas. Ao invés de combater as ideias de identidades grupais, ele esboçou uma narrativa alternativa de identidades sociais, propondo um caminho rumo à reconciliação, uma visão de vida em conjunto reconciliada e reconciliante, inspirada no cristianismo. Assim, contrapondo-se à prática da exclusão baseada na identidade, ele desenvolveu uma ‘teologia do abraço’.


Segundo ele, as diferenças entre as lutas pela identidade estão muitas vezes vinculadas à ambivalência no processo de manutenção de um limite entre a exclusão pela rejeição do outro (diferente de mim) e a diferenciação pela constituição de uma identidade comum.


Ou seja, devemos tomar muito cuidado com nossa tendência em criar grupos nos quais nos identificamos com valores e características em comum que nos fazem excluir aqueles que pensam ou são diferentes de nós.

Se seguirmos o caminho da exclusão, criaremos um mundo hostil baseado no conflito permanente entre "nós" (aqueles que pertencem ao nosso grupo) contra "eles" (aqueles que são diferentes de nós).

Nesta lógica, todos os que não concordam comigo se tornam meus inimigos e, a partir dessa compreensão, várias formas de conflito se tornaram comuns atualmente como as agressões nas redes sociais.


Em todas as guerras, grandes ou pequenas, travadas em campos de batalha, em ruas urbanas, em salas de aula ou salas de estar, encontramos a polarização excludente do ‘nós x eles’.

A exclusão está baseada no corte dos laços que conectam e sua raiz está no ego descentralizado e inflamado pelo pecado, que nos torna inimigos de Deus e uns dos outros. Miroslav Volf vai na raiz dessa postura, mapeando esse caminho da exclusão e propondo um caminho alternativo: o da reconciliação, onde acolhemos o diferente e podemos amar o inimigo. Ele avança a reflexão, considerando não apenas o conflito entre diferentes, mas entre diferentes que se tornam inimigos.


A partir da perspectiva do amor divino que doa a si mesmo, Miroslav apresenta recursos para desenvolver a nossa identidade e nos reconciliarmos com o outro numa condição de inimizade. Não é um caminho fácil e considera a necessidade da cruz, na qual o sofrimento pode ser suportado e podemos negar a nós mesmos para nos doarmos em amor. Apenas esse amor é capaz de libertar nosso ego da impotência a fim de combater o sistema de exclusão que está em toda parte, em nossa cultura e em nosso coração.

O fim dos conflitos centrados na identidade se apoia na convicção de que o amor pelo inimigo, recriado no abraço de Deus dado em Cristo à humanidade pecadora, é fundamental para a fé cristã e a vida no mundo. Assim, o compromisso com Deus, revelado em Jesus Cristo e realizado pelo Espírito, deve regular a manutenção de limites constituintes de identidade e as relações entre pessoas com identidades diversas.


Isto é a verdadeira hospitalidade, onde a vontade de nos doar aos outros e acolhê-los, de criar um espaço seguro para eles se aproximarem, vem antes de qualquer julgamento acerca desses outros que são diferentes de nós.

Percebam que não é um discurso anti-identitário, mas uma tentativa de aplicar o ensino das Escrituras para a convivência pacífica com pessoas e grupos diversos, os estranhos que habitam em nosso meio e aqueles que convivem conosco em nossos círculos familiares, de amizade, trabalho e igreja.


Miroslav, de uma maneira muito cuidadosa, examina como podemos estabelecer e sustentar a paz entre o ego e o outro num mundo ameaçado pela inimizade. Tendo a tese central da hospitalidade de Deus que acolhe a humanidade hostil, ele desenvolve o que é necessário para nos movermos da exclusão para a reconciliação, a partir da análise de quatro aspectos: arrependimento, perdão, criação de espaço em si mesmo para o outro e cura da memória.

Desse modo, a exclusão é enfrentada mediante a prática da doação de si mesmo, moldada na vida do Deus trino, a partir do engajamento na luta pela verdade e justiça no contexto desse tipo de amor manifestado e experimentado através da cruz de Cristo.

Este se torna um livro necessário para leitura e reflexão conjunta com aqueles que estão perto de nós.


Familiares, amigos e irmãos em Cristo precisam aprender a conviver uns com os outros, respeitando a alteridade do outro em um contexto de inimizade e polarização crescentes.

Como cristãos, precisamos aprender a romper o ciclo de maldade que praticamos uns com os outros e viver a partir do bem: amá-lo, desejá-lo e cultivá-lo. Afinal, Deus restaurará todas as coisas e o mal não terá a palavra final. Enquanto isso, Jesus Cristo confere uma nova identidade para nós e abre novas possibilidades para que possamos viver juntos.


Miroslav nos confronta e desafia a vivermos em um mundo hostil a partir de um novo paradigma: do amor manifestado na cruz de Cristo e disponível para cada um de nós a partir da hospitalidade divina. Dessa forma, realmente faremos diferença e brilharemos a luz do abraço de Cristo em um mundo cheio de conflitos que jaz em completa escuridão.


*Resenha do livro Exclusão e Abraço: Uma reflexão sobre identidade, alteridade e reconciliação. Autor: Miroslav Volf. Editora: Mundo Cristão.




Vanessa Belmonte é professora, worker do L’Abri Brasil, coordenadora dos cursos online da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2). Autora do livro "O Lugar da Espera na Vida Cristã". Escreveu para os volumes 00, 01 e 02 da Revista CULTIVAR & GUARDAR. É membro da Igreja Esperança em Belo Horizonte - MG.