Um Luto Invisível

Texto por: Gabriela Marold | Fotografia: Jonathan Sanchez


“É melhor que isso tenha acontecido agora, do que mais tarde…”


Na verdade, melhor mesmo, seria que não tivesse acontecido nunca. Mas aconteceu, e diante disso, o que sobra agora é um tipo de luto. Um luto invisível, muitas vezes incompreendido, mas, sem sombra de dúvidas, um luto.


Como cristãos, levantamos uma bandeira contra o aborto. Temos a convicção de que a vida acontece desde o momento da fecundação. Porém, no momento em que nos deparamos com situações como um aborto espontâneo, as palavras parecem faltar. Não há espaço para discursos e sobra um entendimento raso sobre como consolar alguém que acabou de perder um filho ainda no ventre.

De certa forma, é possível entender o ponto de vista da frase “É melhor que isso tenha acontecido agora” quando usada como tentativa de consolo. Perder um bebê em estágios mais avançados, ou até mesmo uma criança, de fato, é algo muito pior, e não há dúvidas de que é um tipo de luto aceitável. A verdade, porém, continua sendo, em qualquer tipo de perda ou profunda dor, que “melhor mesmo seria que isso nunca tivesse acontecido”.


Desde o momento da descoberta de uma gravidez, há uma conexão especial da mãe com o bebê — geralmente há. Quando há uma interrupção de forma involuntária é difícil explicar as marcas que essa perda ocasiona. Não importa quanto tempo tenha durado uma gestação ou quanto tempo existiu de convívio. Essa triste situação é mais uma daquelas que ultrapassam toda e qualquer explicação e racionalidade.

Com apenas seis semanas de gestação eu sofri um aborto espontâneo. Tive um sangramento, que logo parou. Ao fazer uma ecografia para confirmar como estava o desenvolvimento, não foi mais possível ouvir o coraçãozinho do meu bebê. Consegui ouvir aquele som tão maravilhoso uns dias antes e tinha sido muito bom. Essa atual gestação era um presente para a minha família — principalmente após tudo o que havíamos experimentado no nosso processo de restauração (a história resumida encontra-se no artigo “Casamento: Morte e Ressurreição” no Volume 01 da Revista Cultivar & Guardar).

Perder um bebê tão desejado era mais um “golpe” desta era, mais uma dor a ser carregada. Nesse período, comecei a pesquisar freneticamente a respeito dos possíveis motivos que propiciariam um aborto. A resposta foi a mesma em todos os locais e por todos os profissionais: não havia uma resposta! Infelizmente, esse tipo de situação é algo mais "comum" do que se imagina. Geralmente, acontece por alguma anomalia cromossômica, em que embriões que não se desenvolveram bem já nas primeiras etapas da divisão celular não têm condições para sobreviver.


Após um período de dor física, procedimentos médicos e profunda dor na alma, algo que me trazia um pouco de alívio era quando eu refletia sobre o fato de que, uma vez que a vida humana ocorre no momento em que o óvulo foi fecundado, um bebê, cuja gestação não foi adiante, é um pequeno ser humano, logo, todo bebezinho que não chegou a nascer está nos céus, juntamente com Cristo ressurreto.

Lembro-me de uma situação que me marcou sobremaneira. Embora eu não tivesse divulgado para muitas pessoas sobre a minha gestação, um amigo especial me deu um abraço quando recebeu a má notícia e disse: Você carrega vida dentro de você. Não aceite nada que diga outra coisa. Dentro de você há vida! Naquele momento eu me lembrei de um Provérbio que diz "A morte e a vida estão no poder da língua…” (Provérbios 18:21a). Algo mudou no meu interior simplesmente por ouvir a palavra vida em um momento em que uma morte dominava as minhas emoções.

O consolo quando dado à luz das Escrituras não nos impede de passar pelo luto, mas nos fortalece enquanto passamos por ele.

Vanessa Belmonte, autora do livro “O lugar de Espera na Vida Cristã”, reflete sobre nossas atitudes em momentos de longa espera ou de tristeza proveniente das intempéries da vida:

(…) ao invés de construirmos muros de proteção contra o sofrimento, ou estratégias de sofrimento que anulem os desejos frustados, podemos aceitar a nossa vulnerabilidade e viver plenamente o que nos é dado hoje. Viver em dependência de Deus: entregar em oração constante cada sonho, cada desejo, buscar a vontade de Deus em cada passo, meditar em Sua Palavra (aprender sobre as promessas e as verdades eternas que orientam nossa vida) e confiar naquele que também se humilhou, que esperou e aprendeu pelo que sofreu. A vida de Jesus nos diz que não estar no controle é parte da condição humana.


O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica. (Salmos 119:50).

Após uma noite longa, aprendendo a não odiar a espera dia após dia, experimentei algum tempo depois, o irromper de uma grande alegria. Pela infinita bondade de Deus, experimentei a materialização de uma nova vida e, dessa vez, nos meus braços. Engravidei novamente e o meu bebê nasceu!

Bebês arco-íris são assim chamados por chegarem após uma tempestade — ou seja, uma perda gestacional — são crianças muito desejadas. Nossa família, sem dúvidas, ficou mais completa, mas compreendemos que esse “bebê arco-íris”, embora nos encha de alegria, não é a fonte primária da nossa felicidade. A alegria do Senhor é a nossa força e nEle aprendemos a nos alegrar com a bonança como também a permanecer, alicerçados em Cristo, inabaláveis nos dias em que não conseguimos conter as nossas lágrimas.

O teólogo R. C. Sproul de forma muito graciosa referiu-se a essas tempestades que fazem parte da vida, da seguinte forma:

Associamos lágrimas com tristeza e pesar. Muitos de nós lembramos como, em nossa infância, nossa mãe nos consolava quando estávamos tristes, enxugando nossas lágrimas com o seu avental. Em geral, éramos levados às lágrimas de novo no dia seguinte, e precisávamos de consolo novamente. No entanto, quando Deus enxugar as nossas lágrimas, elas nunca mais retornarão, porque as coisas que nos fazem chorar serão removidas. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Essas coisas velhas terão desaparecido.


Nesse glorioso dia, espero, de alguma forma, reconhecer o meu bebezinho que viveu apenas seis semanas aqui na terra e aguardo com expectativa pelo consolo eterno do Senhor a mim e a todos os que passaram por um tipo de luto, seja ele qual for, aceitável, ou o luto invisível. A alegria, enfim, será eterna!

Enquanto ansiamos por essa realidade, que toda espera redunde na certeza de que o melhor a ser feito hoje é lançarmos sobre Ele toda ansiedade, porque Ele cuida de nós (I Pedro 5:7). E que toda dor produza em nós, conforme Romanos 5, paciência, experiência e muita esperança.

Cristo, homem de dores, soube o que era padecer. Minha tribulação resultou em um bebê que não chegou a nascer, mas fortaleceu de alguma forma o meu homem interior. Hoje, sinto-me impelida a interceder com todas as minhas forças por famílias que tiveram seus sonhos abortados. Direi, por experiência e por fé que não há nada melhor do que descansar na soberania divina e confiar naquele que já venceu a morte.


Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (I Coríntios 15:55).

Gabriela Marold é jornalista, redatora e editora de conteúdo da Cultivar&Guardar. Casada com Juliano, é mãe da Sarah e do Daniel. Serve na Família dos que Creem em Curitiba - PR.