Uma Introdução à Exegese Cultural

Texto por: Kayky Fernandez | Fotografia: Vitaly



Me lembro que a pouco mais de três anos um irmão me perguntou: “cara, o que é nudes?”. Apesar da pergunta simplória, aquilo me abalou bastante. Ele era um estudante universitário, tinha seus 20 e poucos anos e era diácono da sua igreja. Me compadeceu ver o quão isolado da cultura ele estava, o quão preso no gueto evangélico, já que esse termo estava sendo popularmente usado nas redes sociais e na mídia de um modo geral.


O tempo não pára e cada vez mais temos novos desafios. As mudanças culturais, tecnológicas e sociais demandam de nós, cristãos, cada vez mais atenção. Temas como representatividade, ética digital, apropriação cultural e coisas do tipo que estão em alta hoje em dia, daqui a pouco já não estarão tão em moda mais. No lugar deles, novos virão. Serão outras propostas, outros questionamentos, outras inquietações.

“Nosso mundo está mudando e, com ele, nós também. Ele se tornou muito mais amplo, enquanto nosso horizonte se expandiu; mas também se tornou muito menor, pois recebemos informações instantâneas sobre problemas e acontecimentos em lugares muito distantes. Nós nos envolvemos com coisas que nunca imaginávamos antes. Portanto, nosso mundo tornou-se muito mais complexo, e, em nossas respostas para os problemas da vida, temos de lidar com muitos outros fatores que antes.” [1]


Se partimos do princípio de que a revelação de Deus sobre sua criação, sobre a queda do homem e sobre a redenção em Cristo através da Bíblia não é válida apenas para um fragmento temporal, mas para toda a existência humana, então temos um desafio.


Se as Escrituras são imutáveis e a cultura está em constante mudança, então temos um grande desafio!

Só seremos capazes de responder as perguntas do nosso tempo com as verdades de Deus se de fato soubermos quais perguntas são essas. E será impossível saber quais são essas perguntas se estivermos dissociados da cultura. Não é um convite meramente a consumir cultura, mas compreendê-la. A isso se refere esse nome feio: exegese cultural.


Exegese, no seu sentido original, refere-se à interpretação bíblica:


“A exegese é o estudo cuidadoso e sistemático da Escritura para descobrir o significado original, o significado pretendido. (…) É a tentativa de escutar a Palavra do mesmo modo que os destinatários originais devem tê-la ouvido; descobrir qual era a intenção original das palavras da Bíblia.” [2]


Falar de exegese cultural, portanto, se trata de “estudar” a cultura a fim de entender o que ela tem a nos dizer. Seja através da música, da literatura, das produções cinematográficas.

Quer ver como isso funciona na prática? Tire um tempo e ouça a playlist das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no Spotify. Veja quais são os estilos musicais presentes nela, quais as temáticas de suas letras, quais os termos e expressões utilizadas. Depois vem a pergunta-chave: e o que o Evangelho tem a dizer sobre isso?


“Escapismo e conformismo são erros opostos, mas nenhum dos dois é uma opção cristã. Em lugar dessa dupla recusa, nós somos chamados a ouvir em dobro, ou seja, ouvir tanto a Palavra quanto o mundo.” [3]


Esse é o alerta que John Stott nos faz. Não podemos ser escapistas, ou seja, fugir do mundo e imergir numa bolha cristã, assim como o irmão que citei no início. Por outro lado, também não podemos ser conformistas, ou seja, achar que está tudo certo com o mundos em submetê-lo a uma análise pela Palavra de Deus.


Precisamos de um firme fundamento na Bíblia para, através dela, analisar, compreender, criticar e julgar o mundo:


“Nós ouvimos a Palavra com humilde reverência, ansiosos por entendê-la e decididos a acreditar no que viermos a compreender. Nós ouvimos o mundo com atenção crítica, igualmente ansiosos por compreendê-lo, e decididos, não necessariamente a crer nele e a obedecer-lhe, mas a simpatizar com ele e a buscar graça para descobrir que relação existe entre ele e o evangelho.” [4]


Não sejamos ingênuos: arte e a cultura não são neutras. Todo artista, seja ele um músico ou um grafiteiro, possui uma lente pela qual enxerga e interpreta o mundo, e sua arte, quando feita de forma sincera, expressa isso. Portanto, precisamos ser compassivos para entender o porquê do “grito” pró-aborto da banda Carne Doce, em Artemísia, e ao mesmo tempo, biblicamente firmes para apontar onde está oproblema e apresentar a resposta que o Evangelho oferece.


Não quero dar a entender que isso é algo simples. De forma alguma! É preciso diligência, esforço e sensibilidade. Mas é uma tarefa necessária para nós, cristãos do século XXI, sobretudo - mas não exclusivamente - para aqueles que são artistas ou estão de algum modo envolvidos com a cultura.


Por fim, encerro com a frase de Hans Rookmaaker, que ao analisar a arte moderna, diz sobre a importância de nós cristãos compreendê-la: “Se quisermos ajudar nossa geração, devemos ouvir esse clamor.” [5]


Se quisermos ajudar nossa geração, devemos ouvir o clamor da cultura. Seja para concordar, seja para discordar. Mas sempre ouvir, tendo a convicção de que a única resposta para nossos dramas está em Cristo.


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Referências:


[1] ROOKMAAKER, Hans. A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura. Viçosa: Editora Ultimato, 2015, p.210


[2] FEE, Gordon; STUART, Douglas. Entendes O Que Lês?São Paulo: Editora Vida Nova, 2011, p.31


[3] STOTT, John. Ouça o Espírito, Ouça o Mundo. São Paulo: ABU Editora,2005, p.29.


[4] Ibid.


[5] ROOKMAAKER, Hans. A Arte Moderna e a Morte de uma Cultura. Viçosa: Editora Ultimato,2015, p.148


 

Kayky Fernandez é formado em Design Gráfico, especialista em Gestão de Marketing, e estudante de Teologia e coordenador do Invisible College. Casado com Bruna Rodrigues, faz parte da Igreja Cristã Farol Esperança em Goiânia, GO.