O Evangelho em uma Cultura de Consumo

Texto por: Henrique Santos | Fotografia: Karolina Grabowska



Christopher Lasch, um filósofo norte americano, cunhou o termo “cultura do narcisismo” para descrever a nossa geração. Assim o fez para dizer que nosso tempo é marcado pelo desprendimento das antigas tradições, por mais autonomia para os indivíduos e mais tempo para o sujeito pensar em si e no bem estar emocional.


O avanço do capitalismo alimenta esses processos. Pela produção de novos e diferentes produtos, novos referenciais surgem no horizonte cultural para tentar saciar uma geração cada vez mais diversificada, com gostos e interesses diversos. Este cenário viabiliza que as pessoas não consumam o que necessitam, mas façam do consumo em si uma necessidade para a realização de um sentimento de identidade e felicidade individual.

Cultura do narcisismo é irmã gêmea da “cultura do consumo”.

Somos o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chamou de sociedade do consumo: vivemos para consumir. Não pretendo aqui fazer um analise sociológica sobre esse tema; Bauman e o filósofo francês Gilles Lipovetsky produziram importantes textos sobre o assunto. Mesmo que eles colecionem entre si diferenças de pensamento importantes, são unanimes em dizer que uma das principais características da geração contemporânea é o consumismo.


Um dos efeitos colaterais desta cultura de consumo é que tornamos nossas relações muito superficiais e frágeis: não gastaremos o nosso tempo com pessoas que não afirmem nossos desejos. Neste sentido, nossos desejos viraram produtos a serem consumidos e as pessoas do nosso convívio devem ter o “poder de compra” para adquiri-los. Isso é tão curioso que colocamos valor monetário nas coisas para que elas tenham realmente valor. Time is money.


No mesmo contexto, as igrejas divulgam seus discursos de uma maneira que sejam vendáveis, e, neste empreendimento, muitos dos seu princípios são colocados de lado. Outro importante sociólogo chamado Peter Berger, antena para essas mudanças mostrando que no meio religioso, especialmente no Ocidente, a expressão “confissão” deu lugar para a expressão “preferência”. Não nos comprometemos mais com a nossa fé, nós a consumimos.


Esta reflexão me levou para o episódio do jovem rico (Mateus 19.16-30). Após o jovem ter recusado a proposta de vender tudo e dar aos pobres para herdar a vida eterna, Jesus revela com isso a lealdade do coração do jovem e mostra que, independentemente de o rapaz achar que cumpria os mandamentos, o seu problema era a quem o seu coração pertencia.


Depois disso ainda, Jesus fala o quão difícil era um rico entrar no Reino dos céus. Era mais fácil que um camelo passasse pelo fundo de uma agulha. Os discípulos ficaram atônitos: “Quem pode ser salvo então?”.


Veja, esse desespero se dá em virtude de um pensamento muito popular na época, de que a riqueza era um sinal da aprovação de Deus sobre alguém. Portanto, se o rico não entra no Reino dos Céus, quem entrará? A questão é que o dom de Deus não é comprável, não é propriedade dos que têm mais poder aquisitivo. Quando se trata da nossa relação com Deus toda nossa capacidade de compra cai por terra. Não há preço que possamos colocar no favor de Deus.

Receber a Jesus, portanto, desafia o nosso coração a dar valor para a graça de Deus, num mundo que não dá valor às coisas que são de graça.

É abrir mão de construir a nossa vida a partir daquilo que podemos adquirir. Como podemos realizar isso numa cultura de consumismo? “Jesus, olhando para eles, disse: — Para os seres humanos isto é impossível, mas para Deus tudo é possível.” (Mateus 19:26 NAA).


O evangelho é sempre um escândalo para sabedoria humana. Assim o é ao dizer que os maiores bens que o ser humano pode desfrutar na vida não têm valor monetário, não são produtos a serem consumidos, que felicidade e identidade não podem ser comprados com o nosso dinheiro, assim como não podem ser comprados com nossa moralidade, influência, status social, etc.


Numa sociedade de consumo, onde o valor das pessoas e suas relações são estabelecidas pelo poder aquisitivo, o corpo do Cristo, suspenso na cruz, como pão e vinho, dados de graça aos famintos e sedentos, é um escândalo. E também o caminho, como sempre foi, para a libertação.


“Alguém tem sede? Venha e beba, mesmo que não tenha dinheiro! Venha, beba vinho ou leite; é tudo de graça!" (Isaías 55:1 NVT).



Henrique Santos é obreiro em tempo integral no Ministério Anunciando a Cristo e teólogo. Casado com Pâmela, serve no Ministério Anunciando a Cristo em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul.