Além de Nós Mesmos

Por: Luzia Gavina | Fotografia: Vlada Karpovich



Há pouco tempo, a atriz Michelle Willians fez um discurso emocionado na cerimônia de entrega do Globo de Ouro, exaltando o aborto que fez como trampolim para a sua carreira. Afirmou que o seu sucesso só foi possível devido ao aborto realizado, permitindo assim, sua dedicação intensa ao trabalho. Enquanto isso, uma plateia emocionada a aplaudia.


Acompanhamos o avanço de um discurso de falsa compaixão que vende uma ideia de felicidade e realização, mas que, na verdade, esconde o hedonismo de uma geração perdida em si mesma. "Se me traz benefício, vale tudo". Basta alegar a busca pela felicidade própria para que todo e qualquer discurso, ou escolha, ganhe legitimidade, aceitação e até mesmo admiração.


Nesse contexto, ter uma família virou sinônimo de prisão, ter filhos se tornou algo muito caro e se doar pelo outro, um sacrifício muito grande.

Vivemos imersos numa cultura onde o egocentrismo foi naturalizado e as ações e definições da vida se baseiam primeiramente (ou até exclusivamente) no bem estar individual.


Seguimos muitas vezes anestesiados e, às vezes sem perceber, nos deixamos influenciar por esse tipo de pensamento. Damos desculpas para escolhas egoístas que afagam nosso desejo por conforto e nosso desprezo por uma vida de doação para além de nós mesmos. As projeções para a próxima década não são as melhores. Então como nos posicionar enquanto cristãos num cenário como esse?


Uma ótima alternativa seria começar a estabelecer um estilo de vida que vá além do hedonismo dessa geração, mostrando através das famílias, por exemplo, um amor sacrificial que deseja servir mais do que ser servido, amar mais do que ser amado, dar mais do que receber.


A família se tornou um termo abraçado por muitos de forma leviana, oportunista e sem entendimento.


Mas a família, dentro do plano Daquele que a criou, é um grupo formado por pessoas imperfeitas, mas que, tendo sua centralidade em Cristo, pode desfrutar de uma profunda revelação do amor de Deus.

Um grupo de pessoas que encontra deleite em uma vida ordinária e sacrificial que vai muito além de si mesma. Que pensamento escandaloso para esse tempo, não? Quanta beleza há nos pais e mães que renunciam horas de sono para cuidar dos seus filhos; ou no cônjuge que se dispõe a arrumar a casa para que o outro descanse; ou nos filhos que acatam a orientação dos pais por obediência independente do desejo que possuem; ou nos amigos que deixam de sair pra passear para ajudar em uma mudança, ou a rebocar um carro ou a ajudar uma mãe cansada a fazer comida e cuidar dos filhos.


Um ambiente frutífero que, mesmo com suas limitações e imperfeições, expressa o amor do Cristo que nos encontrou e nos molda para nos tornarmos mais parecidos com Ele. Esse ambiente não se limita apenas aos vínculos sanguíneos. Em Efésios 2:19 está escrito: “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus”.


A cruz nos conectou como uma grande família. Como igreja podemos promover esse estilo de vida, gerando uma cultura que não está sob as leis deste mundo caído, mas que aponta para um Reino vindouro que, através de nós, pode ter alguns dos seus aspectos manifestos ainda nesse tempo.

Constituir uma família, ter filhos e viver uma vida de igreja podem ser atos de forte resistência diante de uma cultura tão egocêntrica que ao longo dos séculos só tem avançado. Que nossas famílias, sejam elas de sangue ou espiritual, levantem-se neste tempo como um grande memorial que aponta para o que é eterno. Que neste tempo repleto de egoísmo, disfarçado de compaixão, nosso estilo de vida expresse um amor verdadeiro, que aponta para Aquele que, por meio da entrega da Sua própria vida, nos amou e nos redimiu a fim de vivermos uma vida para além de nós mesmos.


Por: Luzia Gavina



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