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Você Não é o que Você Sofre (Parte 2/2)

Texto por: Bruno Maroni

Fotografia: Karolina Grabowska


"… pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles" (2 Coríntios 4.17).


O sofrimento não é o destino final

O poder do evangelho é revelado por meio de gente frágil, quebrada e quebrável. Para o apóstolo Paulo, paz não é ausência de sofrimento, e sim a presença de Deus.


O sofrimento amplia nosso horizonte descortinando a nossa finitude, desmontando a nossa ambição e desmanchando nosso orgulho. Somos vulneráveis e dependentes: sempre foi assim, mas o sofrimento desvela uma verdade que tentamos esconder.


O apóstolo Paulo vez a após vez reconheceu as virtudes dos seus sofrimentos e dores, vendo-os como oportunidade para se aproximar do Pai, contemplar a Cristo e abençoar aos irmãos.

As nossas feridas importam — não são descartáveis — porque o próprio Deus é um Deus de feridas.

Graças ao sofrimento radical de Cristo, o nosso sofrimento não é o destino final, mas o caminho para nos tornarmos como Ele. Deus é compassivo. Com infinita sabedoria e misericórdia, ele providencia o que precisamos para lidar com o sofrimento. Não permite que sejamos engolidos pela tentação, pelo mal, pelo sofrimento (1Co 10.31). Há propósito no caminho (Rm 8.28). Paulo não era movido pelo medo da morte iminente, mas pela corajosa convicção da eternidade com o Senhor.


Do sofrimento à glória


A glória de Deus tem a ver com a sua infinitude e importância suprema. Quando em nossa vida Deus não é o mais importante — o centro gravitacional do nosso sistema — significa que não reconhecemos sua glória. Nesse caso, as coisas sairão do lugar. Nos tempos de sofrimento perdemos de vista a grandeza, plenitude e beleza singular do Senhor.


Se colocarmos algo muito pequeno e obscuro no centro de nossas vidas, algo que carece de kavod [glória], então os planetas do sistema solar de nossa alma [...] tenderão a um estado de caos e ausência de vida.

— Thaddeus J. Williams


O propósito fundamental do sofrimento é glorificar a Deus. A glória de Deus está em seu amor vulnerável que o fez sofrer. Sofrimento e glória não estão somente justapostos de modo comparativo. Na verdade, o sofrimento produz glória.


O sofrimento é um caminho inevitável para a plenitude futura, e para a experiência verdadeira dessa plenitude no presente. Como?


Sofrer e amadurecer


O sofrimento expõe nossas ansiedades, egoísmo, indisciplina, crueldade, falsidade da religiosidade etc. Nos empurra para além da negação emocional, nos livra da superficialidade e ingenuidade. A experiência do sofrimento desperta resiliência. Nos torna compassivos. O sofrimento pode gerar autoconhecimento, humildade, coragem, confiança e alegria. Não significa que quem “sofre mais” é uma pessoa melhor. Pelo contrário, sofrer não é uma disputa. Sofrimento não é justificação ou redenção.


O sofrimento tem o poder de reordenar as nossas prioridades, mudar o foco de onde investimos excessiva energia (felicidade e realização pessoal). Lança luz ao valor excessivo que damos às coisas finitas (falsos deuses), mas também dá oportunidade de se encontrar novas alegrias — satisfação substancial.


No discipulado, o sofrimento revela a glória de Deus, e nele descobrimos quem somos de fato em Cristo. Nesse sentido, o sofrimento é um meio para o conhecermos mais sinceramente e o testemunharmos fielmente. Enquanto sofremos podemos vislumbrar a glória futura prometida pela ressurreição e experimentar a glória presente revelada pelo amor autodoador de Jesus. Não fuja do sofrimento, não se apresse no sofrimento e nem abandone o sofrimento. Caminhe firmemente.


Não deixe que o sofrimento defina a sua identidade, mas permita que ele leve você à maturidade.

Uma longa caminhada


O sofrimento não define a nossa identidade. Não somos o que sofremos. Somos o que Cristo sofreu por nós.


O que aprendemos sobre crescer através do sofrimento? O sofrimento não gera maturidade rumo à glória automaticamente. Precisamos preparar nossa mente, nosso coração, nossos hábitos.

  1. Discipline seu coração, mente e emoções: aprenda a contemplar a glória futura em meio ao sofrimento da vida presente. Evite soluções rápidas, busque reflexões profundas.

  2. Não espere a crise para treinar sua mente e seu coração para as adversidades inevitáveis: busque conhecimento bíblico e invista em uma vida de oração profunda. Entendimento e intimidade nos preparam para a adversidade.

  3. Nos tempos de sofrimento, lembre-se do sofrimento do Senhor. Recordar-se da dor cósmica de Cristo na cruz nos livra da auto piedade. Mantenha os olhos fixos em Cristo.

Caminhar com Deus pelo sofrimento significa recordar o evangelho.

— Timothy Keller


4. Simplesmente confie em Deus e em seus planos — mesmo os ocultos e misteriosos.

5. Nos tempos de sofrimento, não abra mão de relações que o consolam e confrontam. Aprofunde amizades. A igreja (ecossistema de cuidado) é um lugar seguro para a profunda consolação.

Em tempos de sofrimento, lamente sinceramente, ore corajosamente, pense disciplinadamente, agradeça alegremente, ame ordenadamente, espere confiantemente. Chore com sinceridade, ore com perseverança, reflita com intencionalidade, exercite o contentamento, redirecione o seu amor e cultive esperança.


 

Bruno Maroni é discípulo, pastor-teólogo, autor, redator, professor e ouvinte da cultura. Casado com Larissa, faz parte da ComViver Igreja Batista, em Jundiaí, SP.

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