Um Natal para Acreditar

Texto por: Lucas Gonçalves



O Natal é uma data controversa. Para alguns, é apenas uma invenção a fim de alavancar as vendas no comércio. Para outros, é uma apropriação cristã indevida da cultura pagã — e a lista de questões poderia se estender por páginas...

Na verdade, no cerne do Natal, existe uma polêmica ainda maior, na qual nos deteremos neste texto*: aquele, cujo nascimento comemoraremos no dia 25 de dezembro, é realmente o Messias prometido, que traria os Céus para a terra, ou é apenas um homem qualquer? Podemos apresentar o mesmo problema de forma mais clara nas palavras de C.S. Lewis:

Faça a sua escolha. Ou esse homem [Jesus] era, e é, o Filho de Deus; ou então um louco ou algo pior [um mentiroso]1.

Essa questão se complica quando nos vemos desafiados a escolher o filtro pelo qual julgaremos Jesus. Consideraremos verdadeiras ou falsas as suas afirmações com base em nossa razão limitada? Ou, então, com base em nossos sentimentos subjetivos? Talvez alicerçados em nossos desejos instáveis?

João Batista, primo e precursor de Jesus, se viu com o mesmo problema. Hoje, refletindo sobre esse seu episódio, eu espero que o Espírito Santo guie os nossos pensamentos, os nossos sentimentos e as nossas vontades à resposta eternamente estabelecida: Jesus é o Messias, o Deus encarnado que veio trazer a sua vida perfeita para este mundo caído. Para isso, quero te convidar a lermos juntos o texto de Mateus 11.1-6 (NVI):

"Depois que terminou de instruir seus doze discípulos, Jesus saiu para ensinar e pregar nas cidades da Galiléia. João, ao ouvir na prisão o que Cristo estava fazendo, enviou seus discípulos para lhe perguntarem: “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?”. Jesus respondeu: “Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos vêem, os mancos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas novas são pregadas aos pobres; e feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa”.

JOÃO BATISTA ESTAVA PRESO

O versículo 2 nos diz que, por um longo inverno, João Batista esteve preso (2) — e isso é extremamente importante para a narrativa. Eu gostaria que nós fizéssemos o exercício de nos imaginarmos em seu lugar.

João era o profeta prometido em Malaquias que, à semelhança do profeta Elias, pregaria arrependimento ao povo, o preparando para receber o esperado Messias, aquele que traria o Reino de Deus plenamente e libertaria o povo de qualquer coisa que o afastasse do Senhor. Diante do eminente cumprimento dessas promessas divinas, como você se sentiria, estando preso por inimigos pagãos?

Imagine comigo: após pregar com coragem, ousadia e fidelidade contra os pecados de todo o povo, não temendo ou poupando nem mesmo os líderes e os poderosos, após ouvir o próprio Deus chamar Jesus de “meu filho amado” (Mt 3.16-17), João se encontra preso por infiéis e, de certo modo, abandonado pelo seu Senhor.(3)


Como você se sentiria?

Nós podemos ir ainda além. Se compararmos a sua pregação com a de Jesus, veremos também outro grande contraste. Enquanto João grita aos quatro ventos: “Arrependam-se, raça de víboras” (Mt 12.33), Jesus vem com palavras de graça e misericórdia, contrariando as expectativas, não apenas de João, mas de todos os Israelitas, que esperavam um messias militar, à semelhança de Davi, um messias que expulsaria os impuros de Israel e conquistaria o mundo para o Senhor Deus, promovendo juízo contra o mal e instaurando à força o Reino dos Céus.

Quando olhamos para o contexto de João, considerando essas suas duas frustrações — o abandono de seu Senhor, paralelo à obra de Jesus —, nós podemos perceber que ele realmente encontrava-se preso; todavia, a sua prisão era mais do que uma cela física. Sua prisão se dava em seu coração, que estava desafinado em relação aos planos de Deus.


Sua prisão era, na verdade, as suas frustrações, que o impediam de contemplar a grandiosidade do Messias e de sua Obra.

João tinha uma ideia bem enraizada de como o Cristo se portaria para com os seus servos, assim como também nutria um cenário bem específico de como o Prometido atuaria publicamente. Essas imagens, enraizadas na mente e no coração de João, o atrapalharam de ver quem Jesus realmente era, a tal ponto que seu coração encontrou-se em dúvidas: “é você aquele que haveria de vir, ou devemos esperar outro?” (v. 3). Em outras palavras, “você virá me libertar e iniciará uma guerra contra os pagãos e os judeus impuros, a fim de implementar o prometido Reino de Deus, ou eu me enganei e devemos esperar outra pessoa?”.

NÓS TAMBÉM ESTAMOS PRESOS

O que é interessante nesse exercício de empatia, nesse exercício de nos colocarmos no lugar de João Batista, é que, além da empatia em si, um segundo resultado brota: nós conseguimos facilmente nos identificar com o personagem.


Nós percebemos que também estamos presos, não necessariamente em uma cela, mas em nossas ideias preconcebidas de quem Jesus deveria ser ou de como ele deveria agir.

Quantos de nós, ainda que não manifestemos publicamente, não nos ressentimos contra o Senhor, à semelhança de João Batista, por não termos o emprego que almejamos? Por não experimentarmos o relacionamento que sonhamos? Por não termos os filhos ou os pais que idealizamos? Ou, então, por não recebermos o reconhecimento público de nossos feitos e de nossas capacidades, entre tantas outras frustrações que se derramam sobre nós? Nós pensamos: “se Jesus é Deus, se Ele é bom e me ama, porque a situação XYZ não acontece?”.

Vamos caminhar um pouco além? Quantos de nós, à semelhança de João Batista, não questionamos a condução divina da própria História, ao observarmos que o espectro político x ou y está angariando poder e implementando a própria ideologia em ambiente público? Ao constatarmos que alguma vertente moral, contrastante àquela apresentada na Bíblia, está criando raízes em nossa sociedade e pervertendo os nossos valores? Quantos de nós não encontram dificuldade em abraçar plenamente esse Deus por ouvir dele palavras contrárias à nossa própria ideologia e cultura?

Como é fácil para nós, homens e mulheres de pequena fé, criarmos uma imagem de como Jesus deveria conduzir a nossa própria vida e toda a História e, ao sermos expostos à realidade da proposta divina, nos frustrarmos com o contraste em relação àquilo que o Messias realmente está fazendo.


Como é fácil para nós, nesse contexto, questionarmos se Jesus é realmente o messias ou se estamos apenas nos enganando ao longo de todos esses anos.

Como é fácil para nós, assim como foi para João Batista, cairmos no segundo mandamento (Ex 20.4): "Não farás para ti nenhum ídolo, nenhuma imagem de qualquer coisa no céu, na terra, ou nas águas debaixo da terra".

Muitos acreditam que esse mandamento apenas nos proíbe de fazer representações plásticas do Pai, do Filho, do Espírito, de anjos e afins... Porém, ainda mais profundo, ele também nos proíbe de imaginarmos como Deus e como Ele deveria agir. O mandamento nos proíbe de criarmos uma imagem falsa, pequena e degradante do Senhor Todo Poderoso, de modo que essa nos afaste da verdadeira grandiosidade de Deus e nos impeça de nos contentarmos plenamente com toda a sua glória e majestade.

JESUS LIBERTA JOÃO BATISTA

Porém, graças a Deus, a história não acaba por aqui. Jesus não se ofende com a crise e o questionamento de seu servo. Ao contrário, o Mestre liberta João ao se revelar para ele mais uma vez, conforme os versículos 4 e 5 nos mostram.

Jesus não oferece a João nenhuma palavra evidentemente consoladora. Ele não diz algo como: “Filho, o Senhor vê o teu sofrimento e em breve virá te libertar desta cela”. Ele também não se desculpa pela sua ausência ou por não estar derramando chuva de fogo sobre os inimigos de Israel.


Na verdade, se olharmos com atenção, Jesus nem mesmo se apresenta de um modo diferente: Ele simplesmente orienta aos discípulos de João que voltem ao seu mestre encarcerado e compartilhem com ele o que viram Jesus fazendo — algo que João já sabia, segundo lemos no verso 2.

Todavia, a resposta de Cristo revela uma dupla camada ainda mais profunda e rica. Em sua fala, Ele cita uma profecia de Isaías, registrada no capítulo 35 de seu livro, que descrevia como seria o cenário futuro de redenção e restauração da realidade. Uma vez que em Jesus essa profecia está sendo cumprida, segundo o testemunho ocular dos discípulos de João, Ele se revela mais uma vez como “Aquele que haveria de vir”.


O que Jesus fez e ensinou extrapolam, então, um simples atos de poder, e passam a testificar ao servo frustrado, quando observados sob o prisma das antigas profecias, que Ele é o próprio Messias prometido.

É muito interessante compararmos a predição de Isaías com a resposta de Jesus, pois elas nos apontam para algo incrível! Elas nos mostram que Cristo vai muito além das expectativas. Enquanto Isaías fala apenas de curas e afins, Jesus está trazendo vida aos mortos; Ele está fazendo algo absolutamente maior e mais poderoso do que o esperado. O Messias não veio apenas para libertar Israel da impureza imposta pelos seus governantes corruptos; Ele veio também para trazer vida nova à sua Criação marcada pelo pecado.

Após conhecer estes fatos, João não tem mais razão para duvidar ou se frustrar: Jesus não é simplesmente o Messias esperado, Ele é ainda maior e melhor! Sendo assim, João pode e deve confiar no seu Senhor, não porque Ele cumpre as suas expectativas idealizadas, mas porque Jesus faz algo extraordinariamente melhor.


Diante do que Cristo revela a João, o profeta pode descansar em paz, mesmo encarcerado, pois, ainda que preso fisicamente, seu coração e sua mente foram libertos de sua imagem falsa do Messias, ele fora surpreendido pelo verdadeiro Cristo.

JESUS TAMBÉM NOS LIBERTA

Agora, é importante considerarmos que o mesmo Jesus que se revelou superior às expectativas de João, o libertando de sua incredulidade, está presente pela fé em nossos corações. Jesus também nos liberta de nossa imagem desajustada e desafinada sobre Ele mesmo. O Cristo, que lidou de forma tão compassiva e amorosa com as dúvidas e as crises de um de seus servos, pode olhar com carinho para nós hoje e nos conduzir à liberdade que temos em reconhecê-lo como o nosso Deus.

Você reparou como foi curiosa a reação de Jesus em relação a João Batista? Ele poderia ter se ofendido (sinceramente, eu teria ficado bastante chateado, se fosse Jesus). Ele poderia ter sido ríspido, grosseiro e condenatório. Porém, o Messias foi acolhedor e superou as barreiras de seu servo, para que esse pudesse conhecer a paz que vem de Deus.

Jesus não tem problema com as nossas crises, Jesus não tem problemas com as nossas dúvidas e medos. O problema de Deus é com a nossa autonomia, egoísmo e orgulho, mas o fato de João Batista ter levado a sua questão a Jesus revela fé e dependência.


João não busca resolver a questão por si só, ou por meio de alguém com posturas que o agradassem mais; ele a conduz ao seu Senhor.

Quantos outros personagens bíblicos fazem o mesmo? O profeta Habacuque inicia o seu livro dizendo: “Até quando, Deus, clamaremos por justiça e o senhor ficará em silêncio?”. Nós podemos ler o salmista clamar a plenos pulmões: “Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim?” (Sl 13:1).

A lista de servos que rasgaram o coração diante de Deus não caberia nesse texto. Curiosamente, o Senhor não se voltou contra nenhum deles. Ao contrário, Ele veio ao encontro das necessidades dos seus, veio supri-los de fé para seguirem na jornada.

Neste momento é inevitável que eu te pergunte: qual é a sua crise? Qual é a sua expectativa frustrada que precisa ser colocada diante de Cristo?


O que te atrapalha hoje de reconhecer e de desfrutar o fato de que Jesus é o Messias prometido? Não esconda e não guarde para você esses espinhos de forma autônoma. Permita-se ser surpreendido pelo amor infinito de Jesus, assim como tantos outros filhos de Deus foram surpreendidos.

Porque diante do maior e mais intenso desafio já registrado na História, a morte de Deus na cruz, Jesus clamou: “Deus meu! Deus meu! Porque me desamparastes?” (Mt 27.46) , hoje nós podemos dizer: “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim” (Lc 18.38). Ou, por que não, “Creio, ajuda-me a vencer a minha incredulidade” (Mc 9.24)?

A FÉ TRANSBORDA EM TESTEMUNHO

Jesus nos chama e nos capacita a crermos nele, mas também nos convoca a testemunharmos de sua vida, conforme o versículo 4 nos apresenta. Quantos “João’s” não cruzam os nossos caminhos diariamente? Quantas pessoas próximas a nós não se encontram em dificuldade de crer que Jesus é o verdadeiro Messias?

Elas estão se arrastando e tropeçando, algumas estão definhando e caminhando para a morte permanente. É possível que você seja a última esperança delas em receber uma resposta de Deus para as suas crises de fé.


Que a orientação de Jesus aos discípulos de João encontre lugar também em nossos corações: “voltem e anunciem ao (à) _________________ o que vocês estão ouvindo e vendo”.

É possível que você ouça isso e sinta-se acuado ou incapacitado. “Como provarei para alguém que Jesus é real?”, “e se fizerem uma pergunta difícil?”, “o que eu faço se meu amigo me contra-argumentar?”. Descanse em Deus e não se imponha uma tarefa maior do que aquela para o qual nós fomos comissionados.

Jesus nos chamou para sermos suas testemunhas; Ele não nos chamou para sermos seus advogados. Ele não quer que argumentemos, Ele quer que compartilhemos. O resto do trabalho é responsabilidade do Espírito Santo, que é quem convence aqueles que quer convencer. Apenas fale o que você tem visto e ouvido, deixe a vida fluir através de você.

ESCOLHA BEM

Eu iniciei este texto perguntando de que forma julgaríamos Jesus: seria a partir de nossa razão? Dos nossos sentimentos? Das nossas vontades? Enquanto João Batista avaliou Cristo a partir deste tripé, ele se viu confuso e preso em si mesmo. Todavia, a paz reinou quando o próprio Deus se revelou a João.

Esta é a mesma realidade para nós, aqui e agora. Jesus não se encaixa em nossos pensamentos orgulhosos, em nossos sentimentos subjetivos, em nossos desejos inconstantes. Nós nunca reconheceríamos Jesus como o Messias, caso Ele não se mostrasse assim para nós.


Graças a Deus, pela sua misericórdia, hoje o Espírito Santo está iluminando corações, tirando as vendas dos nossos olhos e nos permitindo dar um passo para fora da cela das nossas almas, da prisão que nos impede de ver como Jesus é infinitamente maior e melhor do que as nossas mais extravagantes expectativas.

O sexto versículo do texto base de nossa reflexão (Mt 11) nos deixa um importante alerta. Quando somos expostos a Cristo, nós temos duas reações possíveis: crermos que Ele é o Prometido, ou duvidarmos dele. Deus nos aconselha a crermos que Jesus é quem diz e provou ser, já que quem assim procede, encontra a felicidade plena.

Entretanto, o oposto também é verdadeiro: aquele que não consegue abandonar a própria imagem falsa de Deus, e abraçar o Messias Revelado, está se condenando aos piores, mais permanentes e plenos sofrimentos que alguém poderia experimentar.


Que o Espírito Santo te conduza a escolher o melhor caminho, o caminho de vida e alegria. Que neste Natal nós venhamos a acreditar que Jesus é o Messias, que dessa fé jorre vida sobre nós e também sobre aqueles que nos cercam.


Amém.


Notas:


1. Lewis, C.S. (2017). Cristianismo Puro e Simples (p. 86). Rio de Janeiro: Thomas Nelson.

2.Rienecker, F. (1998). Comentário Esperança, Evangelho de Mateus (p. 186). Curitiba: Editora Evangélica Esperança. 3. Não há qualquer indicação mínima de que Cristo visitou João em sua prisão e, considerando o estilo narrativo dos israelitas, isso indica que tal visita realmente não ocorreu.



* Texto adaptado do sermão “Jesus é o Messias”, ministrado no dia 05/12/2021 na Igreja Presbiteriana de Paulínia.

 

Lucas Gonçalves é formado em teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Casado com Bia, é seminarista na Igreja Presbiteriana em Paulínia, SP.