O Problema da Superficialidade

Texto por: Henrique Santos | Fotografia: 7inchs



Ouvi alguém dizendo que para ter relevância nas redes sociais tem que ser direto, não pode enrolar e tem que chamar a atenção de cara. Me incomodei, lógico. O problema não é fala em si, mas o que ela sugere: as redes sociais são o mundo da superfície e não do profundo. Do passo a passo e não da reflexão. Do entretenimento rápido e não do encantamento.


As mídias sociais são mais uma grande amostra que vivemos numa sociedade que privilegia o espetáculo e a atração. Somos a geração da manchete que não se importa com o detalhamento dos fatos. Amamos mais a capa do que o livro. É muita informação para pouca verdade. Como diz Beyong Chu Han, filósofo social contemporâneo: “A informação é cumulativa e aditiva, enquanto a verdade é exclusiva e seletiva.

Neste contexto, o mérito do conteúdo não importa, importa que consigamos tornar as pessoas interessadas no conteúdo, por meio do empreendimento de torná-lo atraente. O nome disso é publicidade, existe há muito tempo, aliás. Porém, como tudo na vida, precisa de limites para seja uma prática saudável.


E o limite, imagino eu, é não deixar que a forma de passar (publicidade/propaganda) sacrifique o critério para avaliarmos a qualidade, veracidade e legitimidade da informação que está sendo transmitido.


Deixe-me explicar melhor, voltando à questão do “ser direto”, se esta é a fórmula de tornar algo relevante, pode ser que tenhamos problemas, pois existem coisas que simplesmente, quando submetidas ao imperativo de “ser direto e rápido”, perdem o seu valor. Neste cenário, a forma engole o conteúdo, e se assim for, acabamos por causar um desserviço às pessoas.


O problema de ser direto sempre é que às vezes não lidamos com as coisas com a complexidade que lhes são próprias. Informação por informação pode ser pura ilusão ou liquidez.

Não me interprete mal, a forma é importante. Servimos a um Deus que se importa em tornar as coisas entendíveis, que encarnou, que assume a nossa simplicidade e humanidade, a fim de que tenhamos acesso a Ele. A Bíblia é um compêndio de livros com uma série de tendência estilísticas em termos literários, e estas formas literárias interagem com o sentido do conteúdo dos textos. A fé cristã é um fenômeno com um potencial de imanência e tradução surpreendente, pois pode ser introduzida em toda e qualquer cultura, circunstância e momento histórico. Ok! Mas se entendermos que existem algumas formas, fórmulas e maneiras de transmitir que acabam por prejudicar ou até distorcer a mensagem que queremos transmitir?

Será então que esta maneira de ser relevante nas redes sociais não precisa ser redimida também?

É a velha história, que pode servir como analogia a tema de forma e conteúdo, em que as pessoas dizem que Deus não transforma personalidade, só transforma o caráter. Ora, Deus transforma a personalidade também, pois ela pode ser prejudicial ao nosso caráter: “Sejam mansos e humildades” – mansidão (personalidade), humildade (caráter).


Da mesma maneira devemos entender que a forma, assim como a personalidade, deve ser correta, de forma que torne nossa mensagem acessível, sem distorcê-la, sem que a submetamos a superficialidade dos nossos tempos, claramente vista em uma cultura que as mídias sociais exibem e a ajudam a disseminar.


Nós cristãos não temos compromisso com a informação pura e simples, mas com a sua veracidade. Para isso, “ser direto” não basta, ser superfial não importa. Importa que sejamos verdadeiros e concedamos ao temas que propomos a passar, seu devido tratamento e valor.



Henrique Santos é obreiro em tempo integral no Ministério Anunciando a Cristo e teólogo. Casado com Pâmela, serve no Ministério Anunciando a Cristo em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul.