Não Somos Desse Mundo

Texto por: Dani Cadore | Fotografia: Tatiana Syrikova


“Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia”. João 15:19


Ninguém gosta de ser odiado. Todos desejamos amor e aceitação, por isso as palavras de Jesus em João 15:19 nos soam tão duras. E elas de fato seriam, se antes de mencionar o ódio do mundo, Cristo não tivesse falado sobre o seu imenso amor. Instantes antes de preparar os discípulos para a oposição que encontrariam, Ele derramou o seu amor em suas vidas ao proferir: “Como o Pai me amou, também eu os amei”.


Muitos passam por essa terra e conhecem a Cristo, desejam possuir um relacionamento íntimo com o Senhor, mas não possuem a disposição de enfrentar o ódio do mundo. Ao mesmo tempo que João 15:19 nos aponta para o fato de que fomos separados por Cristo, também nos confronta com a verdade de que nossas atitudes também devem ser distintas e isso produzirá aversão daqueles que não conheceram o amor de Jesus.


Não ser do mundo significa que nascemos nesse mundo, estamos nesse mundo, mas que nossas práticas, ações e reações não se assemelham com esse mundo.


O fio condutor daqueles que seguem a Cristo não são mais os apelos sociais, mas o amor derramado na cruz. E isso muda tudo.

Em uma sociedade de padronizações, escolher o caminho oposto desperta ódio.

Em um mundo de guerra, escolher a paz revela a escuridão do coração daqueles que gritam por sangue.

Em uma sociedade que estimula a busca por mais, escolher perder por amor revela o egoísmo daqueles que negam pão ao que pranteia de fome.

Escolher o caminho bom revela o caminho mau.

E, meus amigos, ninguém que caminha pelo caminho da escuridão quer ser confrontado com a luz que é capaz de revelar a podridão de suas escolhas.


Mesmo assim, inúmeras pessoas buscam encontrar o equilíbrio ilusório entre suprir as expectativas terrenas e servir ao Senhor, fracassando na tentativa de conciliar o inconciliável, confundindo as demandas e apelos sociais com o que Deus espera delas, buscando riquezas, fama, reconhecimento e padrões de beleza, julgando que essas são as expectativas do Senhor para as suas vidas.


Olham para o sonho americano da casa de cerca branca e pensam que foram criadas para isso. Mas basta olhar rapidamente para Cristo e sua caminhada aqui na terra para perceber que o próprio Deus viveu de maneira oposta. Em Mateus 8 lemos que Jesus não tinha onde repousar a cabeça. Ao longo dos Evangelhos, nos deparamos com o Senhor do universo morrendo da maneira mais humilhante possível e sendo desprezado.


Cristo viveu o oposto dos padrões do mundo, por qual motivo pensamos que conosco deveria ser diferente?

Não me entenda errado, não estou dizendo que precisamos viver sem ter onde repousar a cabeça, tampouco que sonharmos com uma casa confortável e bela é errado. O que estou dizendo é que a nossa vida não deve ser conduzida e medida pelos padrões sociais. O que guia aqueles que não pertencem ao mundo é um relacionamento genuíno com o Senhor e não as expectativas e demandas sociais.


Por vezes olhamos para a nossa rotina e buscamos “encaixar” Deus nela, buscando colocar todas as demandas cotidianas na agenda, e somente depois procurar um espaço de 20 minutos para ter um tempo com Deus. Diariamente recebo o questionamento aflito de pessoas que querem seguir a Cristo, mas não conseguem ter um relacionamento diário com o Criador, que são engolidas pelas demandas sociais e pelos padrões do mundo. Almejam a Cristo, mas não conseguem sair do mundo. Esquecem que não é o nosso relacionamento com o Senhor que deve ser moldado à nossa rotina, mas a nossa rotina deve se moldar ao nosso relacionamento.


Para que isso aconteça, para que consigamos ter Cristo no centro das nossas vidas, precisamos silenciar as vozes que nos dizem diariamente que nosso valor está em quanto produzimos, no nosso corpo e em nosso sucesso financeiro. Para colocar Cristo no centro, precisamos estar dispostos a trocar os aplausos humanos por vaias, trocar o reconhecimento terreno por ódio.


Martinho Lutero tem uma frase muito conhecida que, para mim, é um resumo, em palavras humanas, do que é estar no mundo e não pertencer ao mundo: “Eu tenho tanta coisa para fazer hoje, que passarei as três primeiras horas em oração.”


Quando nos movemos pelos padrões terrenos nos levantamos atrasados, tomamos um café forte para aguentar as demandas, corremos para o trabalho, corremos no trabalho, corremos para dar conta de tudo, mas tudo é muita coisa, e assim chegamos em casa, correndo, mais demandas, menos sono, mais angústia, hora de dormir, acabou o dia.


Porém, quando olhamos para o nosso dia carregados da convicção que não pertencemos a esse mundo, mesmo que tenhamos a agenda lotada, faremos do Senhor o centro. O caminho do Senhor é o caminho da comunhão, da oração e do amor. Na estrada do Senhor caminhamos com os olhos fixos na Cruz, enquanto na estrada do mundo corremos com os olhos fixos em padrões sociais. E como sabemos, é impossível olharmos para dois pontos opostos sem tropeçarmos.


Quero te lembrar mais uma vez que você não pertence a esse mundo, que o mundo que pertencemos possui outros medidores de sucesso, onde o amor, santidade, bondade e fé são o que realmente importam. Não negocie o mais importante! Pegue uma cadeira, sente ao lado do Mestre, se preferir, sente-se ao chão, ao lado dos pés do seu Senhor.


Não corra mais. A caminhada da fé não é sobre velocidade, mas sim uma firme caminhada.


Você não é desse mundo e por isso o mundo lhe odeia. E isso é motivo de celebração, não de pranto.


Dani Cadore é teóloga, escritora e designer de moda. Casada com André, serve na Primeira Igreja Batista de Santa Maria (igreja local no Brasil) e na Hillsong Valência, na Espanha, onde é sua residência atual.