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Os Seis Elementos de Um Avivamento Genuíno



(Foto: Avivamento que aconteceu em Asbury em 1970)


Quando falamos sobre avivamento, estamos nos referindo a um dos fenômenos mais importantes, complexos e controversos da história da Igreja. Além da dedicação necessária para falar sobre o assunto, precisamos ser humildes o suficiente para reconhecermos que a grande maioria de nós não presenciou um evento como esse, e que, antes de nós, houve muitos santos piedosos que se dedicaram a compreender melhor a natureza, definição e impacto dos avivamentos, mas não conseguiram encerrar a discussão a respeito de alguns tópicos.


Reconhecer a complexidade desses derramamentos do Espírito Santo não nos leva a relativizar a necessidade de compreendê-los, antes, nos impele a tratá-los com um coração ensinável, disposto a rever convicções secundárias sempre que surgirem novas perspectivas e contribuições relevantes a respeito deles.


Qualquer pessoa sensata que esteja escrevendo a respeito de avivamento, encontra certo desconforto em propor uma definição precisa acerca do que é avivamento, pois tanto ele como o leitor podem cair no erro de pensar que a definição apresentada é o único significado do termo. Diante disso, ao invés de afirmar que avivamento é, prefiro dizer que avivamento também éum evento promovido pelo Espírito Santo, que ocorre em resposta ao despertamento do povo de Deus para buscar uma vida cristã mais centrada em Cristo e coerente com o Evangelho. Tal acontecimento fortalece as convicções acerca do senhorio de Jesus, potencializa o anseio por um compromisso mais sério com as coisas concernentes à religião, e aumenta a ousadia para pregação do Evangelho e testemunho de Jesus Cristo perante a sociedade.”


Em outras palavras, há uma sinergia entre Deus e o homem nos avivamentos, pois não há indícios de que um fenômeno como esse tenha ocorrido num contexto em que homens e mulheres não estivessem buscando a Deus com intensidade e zelo; antes, essas pessoas foram despertadas por Deus para lutar contra a própria apatia espiritual.


Deus responde a esse clamor promovido por Ele mesmo com uma manifestação intensificada do Seu Espírito em meio à comunidade dos santos, de maneira que, o anseio por uma fé mais pura e radical é potencializado.

As consequências do avivamento são de caráter devocional, comunitário e missional, pois ele potencializa o anseio por um relacionamento sincero e reverente com Cristo, impele os irmãos a buscar a santificação e amor fraternal em prol da unidade da Igreja, e impulsiona a pregação do Evangelho e testemunho público de Jesus Cristo.


Uma das principais características do avivamento é reivindicação de Jesus Cristo como Pastor Supremo e principal objeto de adoração da Igreja. Quando isso acontece em escala comunitária, é comum que as coisas fujam do controle do homem. Não é possível prever uma data para a ocorrência de um avivamento, manipular suas ênfases, ou determinar seu prazo de durabilidade.


Embora devam ser protegidos da ganância humana, avivamentos não podem ser domesticados. Contudo, é justamente nesse ambiente de intensidade, imprevisibilidade, e manifestações de certo modo singulares, que as portas se abrem para que coisas estranhas, falsas e antibíblicas também aconteçam. Se o avivamento foge do controle do homem, sempre haverá homens inseridos no avivamento que acham que não podem ser controlados por ninguém, fazendo com que tal evento seja poderoso e ao mesmo tempo perigoso.


(Foto: Asbury Fevereiro 2023)


Isso levanta a seguinte questão: “O que é um avivamento verdadeiro?”. Por mais sincera e séria que seja essa pergunta, criar uma lista que avalia a veracidade ou falsidade de um avivamento é uma tarefa tão complexa quanto definir a forma como ele ocorre ou deve ocorrer. Da mesma forma que não há como prever como um avivamento se desenvolverá (data, local de ocorrência, características peculiares e tempo de duração).


Não é tão simples criar um "ISO 9001" dos avivamentos a fim de afirmar categoricamente se o mover em questão é um avivamento verdadeiro ou não.

Todavia, se formos omissos em buscar elementos que legitimem a ação de Deus, abriremos caminho para que tudo o que é falso seja aceito como verdade. Portanto, pretendo mencionar, a seguir, 6 elementos que devem ser considerados na busca por reconhecer um avivamento como uma manifestação genuína, iniciada, promovida e sustentada pelo Espírito Santo.



OS SEIS ELEMENTOS DE UM AVIVAMENTO GENUÍNO

1. Avivamentos ocorrem na Igreja


Embora isso seja óbvio, muitos críticos, comentaristas e avaliadores desse fenômeno se esquecem desse fato. Há muitas pessoas que romantizam os aspectos que constituem um avivamento bíblico, pois estão mais engajadas na busca por um avivamento perfeito do que genuíno. Movidas por zelo e sinceridade, elas afirmam que o avivamento bíblico é aquele no qual ocorre um retorno sincero à palavra de Deus, busca por santidade, arrependimento, conversões genuínas, impacto missional e um relevante testemunho de Cristo perante a sociedade. É óbvio que essas coisas devem acontecer, mas é ingênuo acreditar que somente essas coisas irão acontecer.


O derramamento do Espírito acontece no seio da Igreja, e a congregação dos crentes está repleta de desafios, pecados, imperfeições, falsos crentes, heresias, paixões mundanas e mais uma série de problemas que precisam ser tratados à luz do Evangelho, através do exercício do ministério dos santos que ocorre em parceria com o Espírito e a Palavra.


O avivamento só seria perfeito se ocorresse numa igreja perfeita, mas nem os mais criteriosos congregam numa igreja assim!

(Asbury Fevereiro 2023)

Jonathan Edwards, um dos principais teólogos e pastores do Grande Despertamento, afirmou que “não é nada novo que, numa época de grande avivamento da religião verdadeira, prevaleça muito de falsa religião. Também não é novidade surgirem nesses períodos multidões de hipócritas no meio de santos genuínos”.


Desde os primórdios da Igreja, percebemos ser comum a ocorrência de falsas conversões, histeria, anseio por protagonismo, comercialização dos dons, fortalecimento de heresias, emocionalistmo e outros elementos que são definitivamente contrários à sã doutrina, que ocorrem num contexto de avivamento.


Eu entendo o zelo de quem busca coerência em relação ao que a Escritura espera de pessoas que provaram da intensa ação do Espírito Santo. Contudo, mencione para mim um momento na história da Igreja em que houve reavivamentos, reformas, despertamentos e outros eventos extraordinários, sem que frutos bons e ruins ocorressem AO MESMO TEMPO. Há pessoas que participam desses ambientes, e após isso, podem comercializar o que viram e de certo modo provaram; há quem possa se engajar em plantação de Igrejas ou missões, e após um tempo, cair em graves escândalos; há quem acabe aderindo a graves heresias; mas há também quem permaneça na centralidade do Evangelho e desfrute de um "impulso a mais" provocado pelo mover do Espírito Santo. De modo que, se formos coerentes em relação à busca pelos frutos do avivamento, precisaremos abraçar a tarefa de conferir um por um, de todos os irmãos que participaram de tal acontecimento.


Independentemente da forma, avivamentos potencializam o anseio de uma comunidade para adorar a Deus coletivamente. Arrependimento, conversões, transformação de caráter, impacto missional, são consequências da exposição coletiva à Presença de Deus intensificada pela ação do Espírito Santo.

Pode ser que alguns desses elementos ocorram com maior ênfase do que outros em determinados momentos. Avivamentos são tendenciosamente coletivos, mas a ação do Espírito Santo continua sendo muito pessoal e relativa à entrega e resposta de cada crente. Portanto, se você quer ver os frutos de tal mover, entenda que o Evangelho é uma só semente, a qual, mesmo em ambientes de avivamentos, encontrará todos os tipos de solos.


2. Adoração centrada em Deus


Quando levamos em conta que o avivamento ocorre em meio a uma igreja que está em processo de edificação e aperfeiçoamento, não caímos na ingenuidade de achar que ele vai ser perfeito. No entanto, por mais que um avivamento possa ter seus problemas, O Espírito Santo sempre irá exaltar a Pessoa de Jesus Cristo. Isso implica na intensificação da adoração a Jesus. É por isso que em muitos avivamentos, o culto congregacional dura mais tempo do que o planejado. Homens e mulheres são despertados para louvar a Deus coletivamente de uma forma até então não experimentada.


Seja através de novos cânticos ou de hinos históricos, a unanimidade e reverência promovidas pelo Espírito Santo se destacam de tal forma que nem o melhor músico ou líder de louvor ganha atenção para si. Na verdade, aqueles que estão envolvidos na tarefa de conduzir a Igreja em adoração, são tomados de temor ao se tornarem cônscios de que devem fazer de tudo para não atrapalhar o que já está acontecendo no local.


(Foto: Asbury Fevereiro 2023)


3. Arrependimento e contrição


Avivamentos nos tornam mais sensíveis à Presença de Deus. O Espírito Santo está, sempre esteve e estará em meio a congregação, mas em contextos de avivamentos, o próprio Espírito de Deus intensifica a percepção da Igreja em relação a Ele. Isso faz com que o contraste entre a pecaminosidade do homem e a santidade de Deus seja evidenciada de forma singular.

A consciência da nossa real condição em contraste com a condição ideal de cada crente – ser semelhante a Jesus- é exposta, produzindo quebrantamento, confissão de pecados e desejo por uma vida cristã coerente.

É nesse ponto que o anseio por um retorno fiel à verdade das Escrituras ocorre. Onde há arrependimento e não há um anseio pela restauração do papel da Palavra de Deus na vida do cristão e da comunidade, não há verdadeiro arrependimento. No entanto, o oposto também é verdade, pois o mero interesse por conhecer a Bíblia e suas doutrinas não pode ser confundido como um avivamento genuíno. Sem o dom do arrependimento que é dado por Deus, o interesse pelas Escrituras não vai passar de intelectualismo. Arrependimento e conversão à Palavra de Deus andam juntos, se há alguma dicotomia entre esses dois elementos, esteja certo de que ela não foi criada por alguém que não seja o próprio homem.


4. Ousadia na pregação do Evangelho


A pureza na adoração e sinceridade de assumir um compromisso sério com Cristo e o Evangelho são os alicerces de uma fé pública. Avivamentos testemunham de Jesus e do Evangelho, e todos aqueles que o experimentam, desejarão contar essa boa notícia à sociedade. Da mesma forma que é comum os santos se arrependerem do seu cristianismo mórbido em contexto de avivamentos, muitas conversões genuínas ocorrem.


Em muitos casos, pessoas experimentam o novo nascimento pelo simples fato de estarem presentes numa reunião onde o avivamento ocorre, e elas mesmas são tomadas pela convicção dos seus pecados e necessidade de crer em Jesus sem o apelo humano.

Mas os crentes que presenciam isso não tratam tal acontecimento como uma prerrogativa para deixar de pregar o Evangelho, antes, são tomados de ousadia para anunciá-lo, confiantes de que Deus está com eles nessa tarefa.


Está em segundo plano definir se essa ousadia para a pregação do Evangelho se materializará em missões transculturais, evangelismo urbano, plantação de novas Igrejas, criação de novas denominações, ou se irá apenas fortalecer as comunidades já existentes antes de sua ocorrência. Ao olhar para a história da Igreja, vemos que todos esses exemplos já aconteceram ou deixaram de acontecer em algum momento. O que é indiscutível é que os avivamentos jamais serão percebidos e desfrutados apenas pela Igreja, pois junto com ele, o zelo por ir até aqueles que haverão de crer sempre estará presente.


(Foto: Asbury Fevereiro 2023)


5. Divisão de opiniões


“Nós não estamos bêbados!” foi a primeira apologia ao derramamento do Espírito proferida por Pedro em Atos. Desde os primórdios da fé cristã, há pessoas que creem no avivamento, há quem permanece cético e há quem seja mais cuidadoso e criterioso.


As razões para isso são as mais variadas, e, vale notar, que em muitos casos, elas estão vinculadas ao contexto teológico e cultural de cada cristão ou comunidade. Se um cristão de origem reformada vir pessoas buscando intensamente um retorno às verdades das Escrituras, ele enxergará tal evento como um avivamento, sem que seja necessária a ocorrência de sinais e maravilhas, curas, adoração extravagante e outros elementos comuns (mas não obrigatórios) em avivamentos.


Contudo, se um irmão de formação pentecostal vir um encontro caracterizado por sinais e maravilhas, operação de dons do Espírito, a tendência é que ele defenda com unhas e dentes aquela ocorrência como um avivamento. Já a pessoa mais engajada no papel publico da fé, se preocupará com o impacto social de tal fenômeno.


Há também aqueles que são mais otimistas, e chamam de avivamento qualquer reunião de oração que durou uma hora mais que o planejado. Por outro lado, há irmãos que por já terem presenciado falsos moveres de Deus, não chamarão um fenômeno de avivamento a menos que Deus desça pessoalmente naquele encontro. Há quem diga que se houver um fruto genuíno, foi um avivamento; mas há também aqueles se perceberem um escândalo ou incoerência, negarão todo o resto.

Todas essas pessoas estão de olhos fixos no que está acontecendo, e por mais interessadas que estejam em julgar o fenômeno do avivamento de acordo com a Escritura, serão afetadas por suas experiencias anteriores. Ao meu ver, como vivemos em dias em que os meios de comunicação facilitam a interação de irmãos em toda a terra.


Vale considerar a importância de nos ouvirmos e aprendermos uns com os outros a fim de que não sejamos reféns apenas de nossos pontos de vista tendenciosos.


6. Eles acabam


O último elemento é, na minha opinião, o mais importante. Todo avivamento tem prazo de validade. Da mesma forma que não se sabe quando um avivamento terá início, não se sabe quando ele acabará; podemos ter certeza, porém, que ele chegará ao fim.


Avivamentos são eventos extraordinários, não constituem a vida comum da igreja. Eles são fenômenos que impulsionam a edificação do Corpo de Cristo que já está sendo realizada pelo Espírito Santo e continuará acontecendo após a sua ocorrência.

Quando tentamos marcar a data para a ocorrência de um avivamento, fabricamos algo semelhante a ele para tentar convencer as pessoas de que Deus está fazendo algo extraordinário. E quando não aceitamos o fato de que Deus não está movendo algo com tanta intensidade quanto já moveu no passado, temos a tendência de reproduzir modelos e formas para negar a ideia de que aquele avivamento se foi.


Isso prende muitas pessoas numa época que já não volta mais, ao invés de servir de encorajamento para que elas deem o próximo passo no processo. Desde o primeiro século da era cristã, vemos que os avivamentos dão lugar à vida comum da igreja. É um pouco difícil datar quando isso ocorre, mas isso de fato ocorre. Na verdade, nós só podemos estudar sobre avivamentos hoje, porque eles tiveram começo, meio e fim.


O que jamais será interrompido até que Cristo volte, é a maturação da Igreja do Senhor, algo que está ocorrendo tanto em meio a eventos extraordinários como os avivamentos, como no viver comum de cada crente ou comunidade que tem abraçado fielmente o processo de discipulado com Jesus.



 

Felipe Bartoszewski é empresário e fundador da Escriba Couro. Casado com Juliana, é pai da Helena, da Giovana, do João e do Tiago. Faz parte da Família dos que Creem, em Curitiba, PR.

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