A Imagem de Deus em Nós

Por: Douglas Gonçalves | Fotografia: Jaqueline Krehnke



Estava tudo bem no Éden, até surgir a serpente. A convivência harmoniosa experimentada por Adão e Eva com Deus e com toda a criação foi por água abaixo com um simples gesto de desobediência; um ato de rebeldia, que chamamos de pecado.


Ao sugerir que Adão e Eva poderiam ser conhecedores de tudo e independentes de Deus, Satanás, representado pela serpente, inseriu também a semente do individualismo naqueles primeiros seres humanos. Ao serem questionados por Deus, após terem feito o que não deveriam, um passou a acusar o outro, ou melhor, cada um passou a defender-se individualmente. Naquele momento, o homem e a mulher deixaram de ser “nós”.


A consequência desse pecado foi muito além da expulsão do paraíso. Na verdade, até hoje, a humanidade arca com os efeitos causados por aquilo que conhecemos como pecado original. Por causa da desobediência daquele casal, todos nós passamos a carregar essa semente maligna.


A Bíblia diz que “da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12 NVI). Trata-se de uma espécie de herança maldita, que pode ser observada no coração humano desde a mais tenra idade. Quem já conviveu com bebês, por exemplo, pode comprovar esse fato com muita facilidade. Se um bebê acorda de madrugada, o mundo precisa parar para atendê-lo! Uma das primeiras palavras que a criança aprende a falar é “meu”. E, por incrível que pareça, muitos adultos agem como se ainda fossem bebês.


Jesus veio exatamente para resolver este problema. Veio fazer uma mudança gramatical em nossas vidas. Ele veio para tirar o “eu”, substituindo-o pelo “nós”. Ele veio arrancar o “meu” e nos ensinar a falar “nosso”. É por isso que a oração modelo, ensinada por Ele, começa com “Pai nosso…”


Tanto a minha vida, quanto da comunidade na qual estou inserido, mudou completamente quando entendemos que “não sou mais eu que vivo, mas sim, nós”. Não existe mais a minha vontade, e sim, a nossa. Se eu e meus irmãos somos um em Cristo, logo, estaremos sempre ansiosos por conhecer e fazer a vontade boa, perfeita e agradável de Deus. A vontade do Senhor passa a ser a nossa.

Se sou um com Cristo e um com o próximo, ao identificar qualquer comportamento no meu irmão que não acredito ser correto, eu não devo usar o pronome “ele” para apontar tal falha, porque ele, na verdade, diz respeito a nós.

Em uma comunidade cristã, as faltas e desvios de comportamento precisam ser tratados sempre no âmbito do “nós” e nunca do “ele”. Não deveríamos tolerar comentários a respeito de algum irmão que comecem com “ele”. Qualquer exortação ou advertência deveria ser feita em amor e em sinceridade a “nós”. Porque o que afeta um, afeta todos.


Existe uma concepção errada de Igreja que precisa ser desfeita o quanto antes. Ela não é o grupo de louvor, não é o pregador ou a pregação, não são os bancos ou os equipamentos eletrônicos. A igreja também não é a beleza arquitetônica de seu templo, não é um número grande de pessoas e cifras. A igreja é você e quem está ao seu lado. Uma congregação poder ser considerada maravilhosa quando existem pessoas que entendem essa natureza coletiva.


É claro que, se dependesse de mim e de você, isso nunca daria certo. Todos nós fomos contaminados com o vírus da individualidade, isto é, com o pecado, e por causa disso, não conseguimos nos encaixar naturalmente um com o outro. Em geral, as pessoas pensam diferente, têm gostos e vontades diferentes. Os casamentos são a melhor prova disso. Se depender da carnalidade de cada um, marido e mulher jamais ficarão juntos, porque enquanto um quer uma coisa, o outro quer outra. Não é à toa que a maior causa de divórcios no mundo é justamente por incompatibilidade de gênios.


No entanto, quando se trata da Igreja, de pessoas que foram salvas por Cristo e se tornaram um com Ele e com os demais irmãos, essas diferenças não chegam a ser um problema. Na verdade, passam até a ser um fator de enriquecimento da comunidade, porque, todas as virtudes começam a ser valorizadas e todas as deficiências passam a ser supridas no convívio amoroso dos irmãos. A única maneira de sermos "nós" é abrindo mão dos interesses individuais e trabalhando pelos interesses de Cristo, com quem somos um.


O Evangelho quer fazer uma mudança gramatical em cada comunidade deste mundo. O Espírito Santo quer tirar o “eu” e colocar o “nós”; quer tirar da nossa boca o “meu” e colocar o “nosso”.

Muitas vezes nos maravilhamos quando lemos a respeito do avivamento descrito no livro de Atos. Queremos que Deus nos avive, derrame do seu Espírito. Gostaríamos que aquelas línguas de fogo pousassem sobre nós também e muitas vezes imploramos: “Senhor, faz isso de novo”.


Creio que, mais do que fazer isso, Deus quer que a sua Igreja hoje seja como a comunidade de crentes descrita no final do capítulo 2 de Atos: “Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. [...] Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração” (At 2:44,47 NVI). Quando o Espírito cai sobre uma comunidade, essa comunidade vira “nós”. Os bens que cada um possui, passam a ser de todos, porque somos apenas mordomos daquilo que Deus nos deu. Não existe mais “o meu carro” ou “a casa da irmã Fulana”. Tudo é nosso!


Seremos Igreja de verdade quando pensarmos: “O que é melhor para nós e o que o Senhor tem para nós, hoje?" Fomos chamados a nos alegrar com os que se alegram e a chorar com os que choram. A felicidade de um, é a felicidade de todos, assim como a tristeza de um, é a tristeza de todos. Ao alcançarmos essa compreensão, seremos capazes de caminhar pelo mundo andando como um só homem, seguindo a instrução de Cristo, o cabeça, e edificando o reino de Deus; levando graça, salvação e esperança a todos os seres humanos.

Por: Douglas Gonçalves


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